terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Entrevista à página do PT nacional

Um dos temas da política internacional mais abordados e explorados pela grande mídia nos últimos dias, e que fatalmente estará na pauta da reunião do Grupo de Trabalho do Foro em Quito, é a situação atual na Venezuela com a doença do presidente Hugo Chávez. Esses fatos afetam politicamente a região? Qual deve ser a posição que será tirada dessa reunião sobre a Venezuela?


Em primeiro lugar, Chavez é conhecido e amigo de muitos dos dirigentes do PT e dos partidos do Foro de São Paulo. Assim, quando torcemos pela sua recuperação, não há apenas uma avaliação política envolvida.
Quanto a situação venezuelana, os fatos são conhecidos: o presidente foi reeleito, a posse deveria ter ocorrido dia 10 de janeiro, Chavez estava impossibilitado de comparecer, a Justiça venezuelana se pronunciou, o governo segue funcionando sob a coordenação do vice-presidente Nicolás Maduro.
Frente a isto, a oposição venezuelana está dividida, predominando neste momento aqueles que parecem ter percebido que o chavismo não é uma pessoa, é um movimento político-social; que as mudanças iniciadas em 1998 são profundas e que não serão revertidas com golpes de azar.
Como quer que a evolua a situação de Chavez, há alguns desafios de curto e médio prazo para a esquerda venezuelana, em particular para o PSUV, entre os quais a constituição de novas lideranças públicas, de massa; e de organismos e métodos coletivos de direção.
Se estes desafios forem bem resolvidos, não haverá retrocessos, nem em escala venezuelana, nem em escala regional. Acredito ser esta a opinião dos partidos que estarão presentes na reunião do Grupo de Trabalho do Foro de São Paulo, dia 17 de janeiro, em Quito, Equador.


Em 2013  haverá eleições presidenciais no Equador e no Paraguai e o Foro de São Paulo vem acompanhando de perto o cenário político nesses dois países. Qual a avaliação sobre a situação política no Equador governado atualmente pelo presidente Rafael Correa?


A maioria dos partidos do Foro apóia a reeleição do presidente Rafael Correa. Digo a maioria, porque no Equador há 6 partidos que pertencem ao Foro, e alguns destes partidos não apóiam Correa. Situação similar a do Brasil: o PCB e o PPS fazem parte do Foro, assim como o Pátria Livre, o PDT, o PSB, o PCdoB e o PT.
Apesar das diferenças de escala e nível de industrialização, também há similaridades na situação estratégica: o governo Correa está combatendo a herança neoliberal, adotando medidas de desenvolvimento econômico, políticas sociais fortes, resgate da soberania sobre as riquezas nacionais, apoiando a integração regional e mudanças na chamada arquitetura internacional.
Isto provoca conflitos com os Estados Unidos e aliados europeus; gera, também, conflitos com setores importantes da burguesia equatoriana; e gera, ainda, conflitos com bases populares que apoiaram a primeira eleição de Correa, mas foram se distanciando, como é o caso de parte dos movimentos indígenas.
Salvo ocorra uma catástrofe, Correa vencerá as eleições presidenciais do Equador. Uma dúvida é como será o desempenho do seu partido, o Pátria Altiva i Soberana (PAIS). Para nós, como é óbvio, interessa não apenas a reeleição de Correa, mas também que o PAIS se fortaleça.


E no Paraguai, após o golpe que derrubou o presidente Fernando Lugo, há chances de retomada do poder central pelas organizações de esquerda?


Em geral eu respondo este tipo de pergunta lembrando que, com raras exceções, a esquerda latinoamericana detém apenas parcelas do governo: o poder mesmo segue com os de sempre. No caso do Paraguai, durante o governo Lugo, isto era ainda mais verdadeiro. E uma das razões disto, entre tantas, é que tínhamos o presidente da República, mas não tínhamos uma representação parlamentar expressiva, em parte porque a esquerda estava dividida.
O grave é que a divisão se aprofundou após o golpe. A tal ponto que temos três candidaturas presidenciais oriundas da esquerda. Se isto se mantiver até as eleições de abril, se reduzem muito as chances de elegeremos o presidente, ou pelo menos uma bancada parlamentar expressiva.
O esforço que estamos fazendo, tanto o Foro quanto bilateralmente os partidos de esquerda da região, é no sentido da reunificação da esquerda paraguaia, seja para aumentar as chances de vitória, ou pelo menos para que sejamos a segunda força política e com isto possamos futuramente voltar a governar o Paraguai.
Agora, como em todas as partes, vale lembrar a luta política as vezes nos presenteia com surpresas inesperadas e positivas.


Outro assunto que deverá estar na pauta do Grupo de Trabalho do FSP em Quito são as negociações de paz na Colômbia. Como estão essas negociações? Há chances reais de se alcançar a paz entre o governo colombiano e as Farc?


Há chances reais de um acordo de paz, se o governo colombiano estiver disposto a fazer algumas concessões, entre elas a adoção de uma política agrária e agrícola em benefício dos camponeses e trabalhadores agrícolas. Em tese isto é possível, exatamente porque há uma divisão na classe dominante colombiana, divisão que é política, entre apoiadores de Uribe e de Santos, e que tem também uma base econômica, que reside entre outras coisas no conflito entre o setor latifundiário mais atrasado, do qual Uribe é uma das expressões, e outros setores econômicos.
Para o presidente Santos, um acordo de paz consagraria sua vitória pessoal e a da sua fração de classe, sobre Uribe e companhia. Neste sentido, temos que fazer de tudo para que as negociações terminem em bom termo. O que seria facilitado pela interrupção das ações militares ofensivas por parte do governo; a guerrilha já o fez, unilateralmente.
Cabe lembrar que um acordo de paz concluiria um processo e abriria outro. E neste novo processo, as diferentes esquerdas colombianas precisam de uma grande força social, política e eleitoral. O PT tem um protocolo de cooperação com o Pólo Democrático Alternativo de Colombia, a CUT brasileira mantém relações com a CUT colombiana, e esperamos que as diferentes forças políticas de esquerda existentes na Colombia se viabilizem como alternativa de governo, para disputar tanto com Santos, quanto com Uribe, .


Que outros temas prioritários estão na pauta da reunião do GT do Foro em Quito? Quais as próximas agendas políticas do Foro de São Paulo?


A reunião do Grupo de Trabalho terá duas partes.
Na primeira delas, vamos fazer uma análise da situação mundial, da situação regional e da situação de cada país.
Do ponto de vista macro, a crise internacional prossegue e as classes dominantes nos EUA e na Europa continuam adotando políticas que causam mais crise e prejudicam os demais países. Motivo pelo qual é importante continuar trabalhando por mudanças nas instituições internacionais, realizar acordos estratégicos com outros países  e blocos regionais, defender a paz, ser solidário com lutas de outros povos, como os palestinos e gregos. E especialmente acelerar a integração regional, que é um de nossos mecanismos de proteção e desenvolvimento. 
Além disso, aos partidos do Foro compete continuar administrando e fazendo mudanças onde a esquerda governa. Assim como fazer oposição e muita luta político-social onde a direita governa,  como é o caso de Chile, da Colombia e do México, entre outros. Países que, por sinal, se articulam no chamado Arco do Pacífico.
A segunda parte da reunião do Grupo de Trabalho será dedicada a revisar a agenda político-organizativa do Foro de São Paulo. Isto inclui desde medidas práticas de apoio e solidariedade, inclusive a processos eleitorais que vão ocorrer proximamente em vários países, como é o caso de Honduras e El Salvador; até definir data, local e programa do primeiro curso de formação política do Foro de São Paulo, em três etapas, tendo como tema central a integração regional.


Já foram definidos a data e o local do próximo encontro do Foro?

Ainda não. Há várias possibilidades, entre as quais a Colômbia e a Bolívia. O Partido dos Trabalhadores e o PCdoB propuseram, como alternativa, o Brasil. A última vez que fizemos o Foro no Brasil foi em 2005. Será ótimo fazê-lo novamente aqui, neste ano de 2013.

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