CAMARADAS

sábado, 25 de outubro de 2014

A ordem de batalha

As pesquisas publicadas no sábado 25 de outubro indicam a vitória de Dilma Roussef.

No Ibope, 53 x 47.

No Datafolha, 52 x 48.

Frente a isto, a Globo tem três alternativas básicas.

Primeira alternativa: uma cobertura na linha do Jornal Nacional de 24 de outubro, sexta-feira.

Neste caso, não haverá fato novo e as urnas vão confirmar o resultado indicado pelas pesquisas.

Segunda alternativa: repercutir a edição criminosa da revista Veja.

Neste caso, Dilma ganhará assim mesmo, ainda que seja 50,5 versus 49,5. E no day after não será apenas a revista Veja a prestar contas na Justiça.

Terceira alternativa: não apenas repercutir a edição criminosa da revista Veja; ir muito além e fazer uma edição criminosa do Jornal Nacional, com desdobramentos na programação do dia 26.

A dúvida de quem dirige a Globo deve ser a seguinte: e se decidirem ir para o tudo ou nada, mas mesmo assim Dilma for reeleita presidenta?

Afinal, a experiência dos últimos anos demonstrou seguidas vezes a força do povo.

Este deve ser o dilema da Globo.

O nosso não é um dilema, é uma decisão: estar preparados para os três cenários.

Logo mais saberemos qual a ordem de batalha do lado de lá: aceitar a derrota, arriscar ou ir para o tudo ou nada.

Ação deles, reação correspondente nossa.

Mas qualquer que seja a ação deles, nosso foco não pode mudar: o dia de amanhã deve ser totalmente dedicado a ganhar.

A melhor maneira de evitar qualquer golpismo é ganhando nas urnas.
















sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Veja faz

Faz parte.

Gastei parte da minha manhã lendo a revista Veja.

Chamo de revista porque estudei artes gráficas e opto pelo termo técnico.

Não fora isto, chamaria de outra coisa.

Lida capa e miolo, não há dúvida de que se trata apenas de um panfleto eleitoral contra a reeleição de Dilma, contra Lula e contra o PT.

Panfleto que desrespeita a legislação eleitoral.

Panfleto escrito com assessoria de advogados.

Teria muita coisa a ser dita. Mas para economizar nosso tempo, vejamos apenas os dois trechos a seguir (os negritos são meus):

Trecho 1: "VEJA não publica reportagens com a intenção de diminuir ou aumentar as chances de vitória desse ou daquele candidato. VEJA publica fatos com o objetivo de aumentar o grau de informação de seus leitores sobre eventos relevantes, que, como se sabe, não escolhem o momento para acontecer". 

Trecho 2: "(...) poderia ter realizado toda essa manobra sem que Lula soubesse? O fato de ter ocorrido no governo Dilma é uma prova de que ela estava conivente com as lambanças da turma da estatal? Obviamente, não se pode condenar Lula e Dilma com base apenas nessa narrativa. Não é disso que se trata. Youssef simplesmente convenceu os investigadores de que tem condições de obter provas do que afirmou a respeito de a operação não poder ter existido sem o conhecimento de Lula e Dilma."

Sutil, não?

Eventos relevantes não escolhem o momento para acontecer.

"Eventos" não. Mas a mídia escolhe do que falar, como falar e o momento de falar.

Por exemplo: a falta de água em São Paulo.

Vai ver que eventos tucanos não movem a Veja.

Mas afinal, de que eventos trata a presente edição da revista?

Lendo o texto, não se encontra uma mísera prova de que:

1)Youssef tenha realmente dito o que Veja coloca na boca dele;

2)Os "investigadores" tenham realmente ficado convencidos de algo.

Tudo que há é off.

Off... ou pura e simples invenção.

Por falar em invenção, convém lembrar do episódio relatado no link abaixo:

http://terramagazine.terra.com.br/semfronteiras/blog/2010/12/26/a-falsa-comunicacao-de-crime-feita-por-gilmar-mendes-encerra-2010/

Mas vamos imaginar que Youssef tenha mesmo dito algo (seu advogado nega) e vamos supor, também, que os investigadores tenham mesmo ficado convencidos de algo.

Ainda assim, quem garante que Youssef esteja falando a verdade? 

Como se sabe, o que é dito na delação premiada precisa ser comprovado.

Sem provas, é um ato criminoso divulgar uma acusação desta gravidade.

E fazê-lo neste momento constitui interferência criminosa no processo eleitoral.

Veja cometeu estes crimes, para tentar ajudar Aécio nesta reta final.

Ou, quem sabe, para começar antecipadamente a campanha de 2018.

Mas Veja sabe o risco que está correndo.

Por exemplo, o de ter que pagar uma indenização milionária.

Certamente por isto, algum advogado recomendou à Veja incluir, no mesmo texto em que condena Lula e Dilma, a seguinte frase: "não se pode condenar Lula e Dilma com base apenas nessa narrativa".

Não é genial?

Não se pode condenar, com base numa narrativa que Veja atribui a terceiros, mas que tudo indica forjada pela própria revista.

Não se pode condenar, mas Veja pode divulgar, em matéria de capa, na véspera da eleição, como se verdade fosse.

Veja merece um escracho.

Veja merece ser condenada, entre outras coisas a pagar uma indenização monstro a todos que ofendeu.

Veja merece sobreviver única e exclusivamente de seus assinantes e leitores.



Veja merece perder as eleições.

E Veja merece ser vendida num saquinho plástico impermeável, com uma recomendação do Ministério da Saúde estampada do lado de fora.

Algo genérico assim: Veja faz (muito) mal.


*


ps. aproveitando, vamos contribuir neste concurso: http://desesperodaveja.tumblr.com

ps. vale a pena ler Azenha: http://www.viomundo.com.br/denuncias/como-funciona-venda-casada-entre-revista-veja-e-o-jornal-nacional.html

ps. fundamental ouvir a presidenta Dilma: http://youtu.be/th857UxUe8Y

ps. Lei da Mídia Democrática neles!!!!


























quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Sandra Starling

Ao mesmo tempo que somos tomados de emoção, cada vez que vemos as ruas alegres pela militância de esquerda em favor da candidatura Dilma Rousseff...

Ao mesmo tempo que somos tomados de indignação, quando vemos a direita desfilar seus ódios, rancores, preconceitos e violências...

Ao mesmo tempo, somos tomados de espanto ao ver algumas pessoas com passado de esquerda declinarem seu voto em Aécio.

O espanto dura pouco, pois a história está cheia de casos assim. 

Gente que no passado militou na esquerda e, em algum momento, passou para o lado de lá.

Para citar dois vivos, Serra e Fernando Henrique.

Para citar um morto-vivo, Carlos Lacerda.

Para minha tristeza, é também o caso de Sandra Starling.

Sua declaração de voto em Aécio está reproduzida ao final.

Cito: "Quero ter a coragem de enfrentar esses 12 anos em que o PT se julgou a consciência política do Brasil".

Cito: "censura ao IPEA".

Cito: "Não compactuo com esse tipo de método".

Teria o que dizer a respeito disto.

Mas não tenho nada a dizer acerca do que vem depois.

Cito: "Vou votar no Aécio, com todo o medo que ele me causa de que venha a aumentar o peso da exclusão sobre os trabalhadores, as mulheres, os homossexuais, aqueles excluídos enfim – mas não vou me calar diante das mentiras que a Dilma vem assumindo".

Cito: "Qualquer que seja o resultado, para mim, terei cumprido meu dever de brasileira: arrisquei a perder ou a ganhar – para os outros que sofrem, não para mim, porque nada tenho a perder".

Starling tem medo de Aécio.

Starling tem medo de que, com Aécio, aumente a exclusão sobre os trabalhadores.

Starling tem medo de que, com o Aécio, aumente a exclusão sobre as mulheres.

Starling tem medo de que, com o Aécio, aumente a exclusão sobre os homossexuais.

Mesmo assim, Starling prefere votar em Aécio.

Por causa das "mentiras"? Por causa da "censura"??

Vejamos: mesmo que os problemas apontados fossem verdade, mesmo que no quesito "mentiras e censuras" o PSDB de Aécio não fosse campeão absoluto, mesmo assim o compromisso com os de baixo vem em primeiro lugar para quem tem o coração do lado esquerdo do peito.

Há muito tempo não tenho notícias de Sandra. Não sei quando, como e porque seu coração mudou de lado. Mas com esta decisão, na batalha decisiva de 26 de outubro, ela estará nas trincheiras do inimigo. Com seu voto, ajudará aqueles que querem piorar a vida dos excluídos.

Sandra acha, provavelmente sem perceber o sentido ambíguo que a frase adquire no contexto, que ela nada tem a perder, ganhe quem ganhar

Mas ela está enganada. 

Pois a classe trabalhadora, a maioria do povo brasileiro e latino-americano, tem muito a perder (e a ganhar) nesta eleição. 

Quem não leva isto em consideração, perdeu algo fundamental. Que não perceba isto, já diz tudo sobre o tamanho da perda.





Segue a íntegra do texto de Sandra Starling

http://www.jornaldamidia.com.br/noticias/2014/10/22/Blog_do_JM/Fundadora-condecorada-do-PT-vai-votar-em-Aecio-Neves.shtml

Meu voto crítico em Aécio é um veto ao voto a Dilma

Sempre gostei de aprender.

E ontem aprendi com o deputado Marcelo Freixo, do PSOL, que resolveu, ao contrário de mim, dar um voto crítico em Dilma e um veto ao Aécio. Lembrei-me do tempo em que juntos lutamos (nós e o PSDB) contra o Collor e fizemos o abraço na Av. do Contorno e na campanha de vestir- se preto contra o Presidente que sofreu o impeachment.

Vou fazer o contrário do Freixo.. Quero ter a coragem de enfrentar esses 12 anos em que o PT se julgou a consciência política do Brasil e no qual fez e aconteceu como os demais, em tudo, – para , afinal, me deter na censura ao IPEA porque o IPEA, órgão do próprio governo, não demonstrou o que todos os que pelejam para entender este país já percebiam: a desigualdade social não diminuiu a ponto de ser significante do ponto de visto estatístico – logo, na lógica da Dilma Rousseff, que se parece à de Delfim Netto na ditadura, deve-se esconder os dados que não são a favor do partido que nos agrada.

Não compactuo com esse tipo de método.

Fiz uma oposição consciente e determinada ao governo de FHC, quando fui líder do PT na Câmara dos Deputados. O resto de minha história não tem a menor importância. Ia, inclusive, usar meu direito de ser “idiota”- como diziam os atenienses e deixar de votar. Mas não vou me abster.

Vou votar no Aécio, com todo o medo que ele me causa de que venha a aumentar o peso da exclusão sobre os trabalhadores, as mulheres, os homossexuais, aqueles excluídos enfim – mas não vou me calar diante das mentiras que a Dilma vem assumindo.

Qualquer que seja o resultado, para mim, terei cumprido meu dever de brasileira: arrisquei a perder ou a ganhar – para os outros que sofrem, não para mim, porque nada tenho a perder.

Bom voto a todos no domingo.

* Sandra Starling, fundadora do PT, foi deputada federal e líder da bancada petista na Câmara.

Cada profissão tem o Lobão que merece

Quando a mídia quer dar aparência "objetiva" para as suas posições, é comum recorrer à "opinião isenta de um especialista".

Marco Antonio Villa é um destes "especialistas".

Sua "objetividade científica" pode ser medida pelo artigo publicado pela Folha de S. Paulo, no dia 23 de outubro de 2014.

Título do artigo?

"Fora PT!"

Citaremos e comentaremos a seguir o tal artigo, reproduzido na íntegra ao final.

Villa começa com uma afirmação que consideramos correta: "estamos vivendo o processo eleitoral mais importante da história da República". 

Mas os motivos dele são diferentes dos nossos.

Consideramos que está em jogo a possibilidade de aprofundar as mudanças iniciadas em 2003. 

Já Villa entende que nestas eleições "está em jogo um mandato de 12 anos". 

Aparentemente, ele não fala dos 12 anos passados, mas dos próximos 12 anos.

Segundo entendi, Villa é daqueles que acha que uma vitória do PT em 2014 nos garantiria mais três mandatos presidenciais.

Para nós, a vitória de Dilma não é a vitória do PT tão somente, mas é a vitória das forças políticas e sociais que defendem outro projeto de país.

Para Villa, "caso o PT vença, estarão dadas as condições para a materialização do projeto criminoso de poder --expressão cunhada pelo ministro Celso de Mello no julgamento do mensalão".

Ou seja: o PT, na opinião de Villa, pode ser resumido a uma organização criminosa.

Convenhamos: quem pensa assim, se for coerente, não vai reconhecer a legitimidade de um futuro governo Dilma e pode vir a romper a legalidade.

E uma hipotética vitória de Aécio, o que seria?

Segundo Villa, neste caso "poderemos pela primeira vez ter uma ruptura democrática --pelo voto-- com a vitória da oposição. Isso não é pouco, especialmente em um país com a tradição autoritária que tem".

Ops!!!

De 1989 a 2010 tivemos 6 eleições presidenciais.

O PT perdeu três e ganhou três.

Villa tem todo o direito de dizer que uma hipotética vitória de Aécio seria uma "ruptura democrática".

Mas não é sério dizer que seria "pela primeira vez" uma "ruptura democrática --pelo voto'-- com a vitória da oposição". 

Pois como todos sabemos, em 2002, com a vitória de Lula, tivemos uma vitória da oposição que com muito mais motivos pode ser qualificada de "ruptura democrática".

Salvo se...

Salvo se Villa achar que estamos numa ditadura ou algo equivalente a isto.

Temos visto gente do PSDB falar isto nas ruas.

Certamente é o que Villa pensa e por isto ele fala em ruptura democrática pelo voto.

Na opinião de Villa, "o PT não gosta da democracia. Nunca gostou. E os 12 anos no poder reforçaram seu autoritarismo".

Na nossa opinião, o PT quer mais democracia, mais participação popular, mais controle social, mais transparência, mais liberdade de comunicação.

Acontece que a "democracia" que Villa defende não é a democracia que o PT defende.

E mesmo nos marcos da democracia que Villa defende, façamos uma comparação do governo Aécio com o governo Dilma, em por exemplo dois temas: transparência e liberdade de imprensa. 

Em qual governo as informações são mais amplamente divulgadas?

Em qual governo os meios de comunicação são mais críticos ao governo?

Convenhamos, mesmo adotando os critérios que provavelmente são os que Villa considera índices de democracia e autoritarismo, a comparação é clara: no governo Dilma há mais transparência e liberdade de imprensa.

Villa considera que "hoje, o partido não sobrevive longe das benesses do Estado. Tem de sustentar milhares de militantes profissionais".

Aqui Vila enuncia seus desejos, como se fossem fatos.

Claro que ter militantes profissionalizados, ou seja, recebendo salário para fazer política, seja no Parlamento, nos governos, nos sindicatos e no próprio partido, pode ser importante para qualquer partido.

Aliás, até onde eu sei, Aécio é um exemplo de "político profissional" tradicional, desde antes da maioridade. 

Mas no caso do PT (e da esquerda em geral), a experiência destes 12 anos mostra que a maior vitalidade do PT, demonstrada por exemplo neste segundo turno, não vem dos "profissionais da política". 

Pelo contrário, a imensa força e vitalidade do PT vem exatamente daqueles que não recebem salário para fazer política. 

A vitalidade do PT vem daqueles que pagam para fazer política, a chamada "militância voluntária".

Villa afirma que o PT substituiu "o socialismo marxista" pelo "oportunismo, pela despolitização, pelo rebaixamento da política às práticas tradicionais do coronelismo". 

Claro que o pensamento petista é influenciado por diferentes versões do marxismo. Mas falar de "substituição" é forçar a barra, pois a rigor o PT nunca foi "marxista", ou seja, nunca adotou o marxismo (ou qualquer outra corrente de pensamento) como sua "doutrina oficial". 

Quanto as demais acusações, convenhamos, na boca de Villa viraram mero xingamento. Novamente, sugiro confrontar as acusações com o que está sendo visto nas ruas.

O PT politiza a disputa, ou seja, deixa claro que há uma disputa de projetos de país (não de pessoas, não de partidos somente).

Aliás, a presença do PT na história brasileira, desde 1980, contribuiu para a politização da sociedade brasileira.

O PT estimula a participação das massas populares na política brasileira. O contrário das "práticas tradicionais do coronelismo".

Quanto a acusação de oportunismo, é preciso lembrar qual o significado desta palavra, a saber: abandonar os objetivos de longo prazo em favor de ganhos de curto prazo.

Cá entre nós: se o PT tivesse mesmo abandonado os seus objetivos de longo prazo, Villa estaria atacando o PT com tanta virulência??? 

Na verdade, o que irrita Villa é que depois de 12 anos de governo, depois de concessões e alianças que muitos petistas consideram incorretas, o conjunto do PT, o que o petismo significa na e para a sociedade brasileira, continua sintonizado com os interesses da classe trabalhadora.

Para Villa, entretanto, a "socialização dos meios de produção se transformou no maior saque do Estado brasileiro em proveito do partido e de seus asseclas de maior ou menor graus".

Novamente, fala o tucano, cala o historiador: todos os dados disponíveis apontam para o PSDB como o partido mais envolvido em casos de corrupção.

Portanto, mesmo se todas as acusações feitas ao PT e contra petistas fossem verdadeiras, ainda assim o PSDB ficaria com o troféu de "maior saque".

O historiador cala e o tucano fala, também, na acusação contra Lula, que Villa acusa de ser "o que há de mais atrasado na política brasileira. Tem uma personalidade que oscila entre Mussum e Stálin".

Cá entre nós: que tipo de história ensina este senhor, capaz de produzir análises tão desqualificadas?

Villa poderia ter oferecido alguma análise e crítica séria sobre a política de alianças do PT, sobre as relações do PT com setores do PMDB, sobre as concessões feitas a setores do Capital.

Mas ele não fez nada disto. Ele limita-se a ofender o PT e Lula, que segundo ele "fez de tudo para que esta eleição fosse a mais suja da história".

Ora, ora: foi o PSDB que resolveu colocar no centro da pauta eleitoral o tema da corrupção, do "mar de lama". É Villa e gente como ele quem trata o PT como uma organização criminosa. E é Lula que está fazendo desta eleição a "mais suja da história"?

Trata-se, digamos, de um problema de "ponto de vista".

Para Villa, as mentiras divulgadas todo o dia pelo oligopólio da mídia são justas, verdadeiras, corretas, equilibradas e limpas. Já as respostas do PT seriam "sujeira". 

Por exemplo, Villa acusa o PT, "por meio do seu departamento de propaganda --especializado em destruir reputações", de ter "triturado" Marina Silva "com a mais vil campanha de calúnias e mentiras de uma eleição presidencial".

Curioso este historiador. Não aponta uma única calúnia, não aponta uma única mentira. 

Acontece que o fato, que Villa deveria saber (e neste caso mente), ou não sabe (e neste caso deveria devolver o diploma), é que as "reputações" de Marina e de Aécio não foram "destruídas" pelo PT, mas por eles mesmos.

Marina, ao assumir o programa do PSDB.

Aécio, por ser quem é e defender o que defende.

Por falar em (tentar) destruir reputações: Vila diz que "Dilma nada representa. É mera criatura sem vida própria. O que está em jogo é derrotar seu criador, Lula". 

Novamente, Villa não está observando os fatos. Dilma não apenas tem uma bela história, não apenas tem posições firmes, não apenas é uma grande presidenta, mas também todos percebem hoje que se converteu numa grande liderança popular.

Para horror do PSDB, o PT agora tem duas grandes lideranças nacionais, não apenas uma. 

Mas devemos agradecer a Villa por nos lembrar o que o PSDB faria, se tivesse a oportunidade: tentar destruir Lula.

Mas por qual motivo tanto ódio de Lula?

Villa acusa Lula de ter transformado "o Estado em sua imagem e semelhança". Quem quer que conheça o Estado brasileiro sabe que isto não é verdade. Aliás, fazer uma profunda reforma que democratize o Estado e a política seguem sendo tarefas pendentes.

Villa diz que Lula "desmoralizou o Itamaraty ao apoiar terroristas e ditadores. Os bancos e as estatais foram transformadas em seções do partido. Nenhuma política pública foi adotada sem que fosse tirado proveito partidário. A estrutura estatal foi ampliada para tê-la sob controle, estando no poder ou não".

Fatos que sustentam esta tese? Nenhum. 

A verdade é o oposto do que diz Villa: apesar do PT ter vencido três eleições presidenciais, parcelas importantes da máquina estatal continuam não apenas "autônomas", como também influenciadas ou até dirigidas pela oposição.

Vejam o caso do STF: tanto Joaquim Barbosa quanto vários dos ministros que acompanharam seu voto na AP 470, foram indicados por Lula e por Dilma.

Na verdade, o ódio contra Lula é menos pelo que ele fez e mais pelo que ele representa, simbólica e historicamente. 

Aliás, a parte mais divertida do texto de Villa é quando ele manifesta sua preocupação com o PT. Diz ele: "a derrota petista é a derrota de Lula. Será muito positiva para o PT, pois o partido poderá renovar sua direção e suas práticas longe daquele que sempre sufocou as discussões políticas, personalizou as divergências e expulsou lideranças emergentes". 

Vou repetir: para Villa, derrotar Lula teria efeitos positivos para o PT. Dá para levar a sério, como historiador, como ser pensante e racional, quem é capaz de escrever isto?

Mas não causa divertimento algum ler o seguinte: "principalmente, quem vai ganhar será o Brasil porque o lulismo é um inimigo das liberdades e sonha com a ditadura".

Insisto: quem fala e pensa isto, amanhã pode começar a pensar em estimular e apoiar um golpe.

Quem considera que o PT deve ser tratado como "os marginais do poder" não vai aceitar democraticamente mais uma derrota eleitoral.

A parte final do texto de Villa é um elogio ao que Aécio representa. Desnecessário comentar aqui, salvo o seguinte trecho: Aécio "representa a ética e a moralidade públicas".

Como história, é uma fábula.

Mas como política, revela os padrões de ética e de moralidade considerados ótimos pela oposição de direita.

E uma oposição de direita que considera ótimo um candidato como Aécio, só pode mesmo ter "intelectuais" do porte de um Marco Antonio Villa e de um Lobão.

E já que estamos no terreno dos lobões, Chapeuzinho Vermelho e a Vovó devem aumentar seus cuidados.

Pois a seriedade intelectual desta gente é tão grande quanto seu compromisso democrático. 





Segue o texto na íntegra

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Fora PT! - Marco Antonio Villa – Folha de S.Paulo 
Estamos vivendo o processo eleitoral mais importante da história da República. Nesta eleição está em jogo um mandato de 12 anos. Caso o PT vença, estarão dadas as condições para a materialização do projeto criminoso de poder --expressão cunhada pelo ministro Celso de Mello no julgamento do mensalão.
Em contrapartida, poderemos pela primeira vez ter uma ruptura democrática --pelo voto-- com a vitória da oposição. Isso não é pouco, especialmente em um país com a tradição autoritária que tem.
O PT não gosta da democracia. Nunca gostou. E os 12 anos no poder reforçaram seu autoritarismo. Hoje, o partido não sobrevive longe das benesses do Estado. Tem de sustentar milhares de militantes profissionais.
O socialismo marxista foi substituído pelo oportunismo, pela despolitização, pelo rebaixamento da política às práticas tradicionais do coronelismo. A socialização dos meios de produção se transformou no maior saque do Estado brasileiro em proveito do partido e de seus asseclas de maior ou menor graus.
Lula representa o que há de mais atrasado na política brasileira. Tem uma personalidade que oscila entre Mussum e Stálin. Ataca as elites --sem defini-las-- e apoia José Sarney, Jader Barbalho e Renan Calheiros. Fala em poder popular e transfere bilhões de reais dos bancos públicos para empresários aventureiros. Fez de tudo para que esta eleição fosse a mais suja da história.
E conseguiu. Por meio do seu departamento de propaganda --especializado em destruir reputações--, triturou Marina Silva com a mais vil campanha de calúnias e mentiras de uma eleição presidencial.
Dilma nada representa. É mera criatura sem vida própria. O que está em jogo é derrotar seu criador, Lula. Ele transformou o Estado em sua imagem e semelhança. Desmoralizou o Itamaraty ao apoiar terroristas e ditadores. Os bancos e as estatais foram transformadas em seções do partido. Nenhuma política pública foi adotada sem que fosse tirado proveito partidário. A estrutura estatal foi ampliada para tê-la sob controle, estando no poder ou não.
A derrota petista é a derrota de Lula. Será muito positiva para o PT, pois o partido poderá renovar sua direção e suas práticas longe daquele que sempre sufocou as discussões políticas, personalizou as divergências e expulsou lideranças emergentes. Mas, principalmente, quem vai ganhar será o Brasil porque o lulismo é um inimigo das liberdades e sonha com a ditadura.
Daí a importância de votar em Aécio Neves. Hoje sua candidatura é muito maior do que aquela que deu início ao processo eleitoral.
Aécio representa aqueles que querem dar um basta às mazelas do PT. Representa o desejo de que a máquina governamental esteja a serviço do interesse público. Representa a disposição do país para voltar a crescer --de forma sustentável-- e, então, enfrentar os graves problemas sociais. Representa a ética e a moralidade públicas que foram pisoteadas pelo petismo durante longos 12 anos.
Cabe aos democratas construir as condições para a vitória de Aécio. Não é tarefa fácil. Afinal, os marginais do poder --outra expressão utilizada no julgamento do mensalão-- tudo farão para se manter no governo. Mas o país clama: fora PT!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Texto antigo

Segue o link com a versão em pdf de A Metamorfose, texto escrito entre novembro de 2005 e fevereiro de 2006.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Nas vésperas

Pode haver muita tensão pós-eleitoral.

Seja por atos agressivos de aecistas.

Seja por decisão política da campanha tucana, frente à uma quarta derrota presidencial consecutiva.

Não sei dizer qual será a posição do conjunto da cúpula tucana.

Mas já sabemos qual é a posição de um de seus integrantes: Alberto Goldman. 

Esta posição, que já foi criticada por Breno Altman, está disponível no seguinte texto:

http://www.psdb.org.br/o-brasil-rejeitou-o-pt-dilma-nao-teria-condicoes-de-governar-o-brasil-por-alberto-goldman/

A crítica de Breno Altman está aqui: 

http://operamundi.uol.com.br/brenoaltman/2014/10/20/tucanos-flertam-com-golpismo/


No final de seu texto, Goldman pergunta o seguinte: "ainda que vitoriosa nas urnas, Dilma teria condições de governar o Brasil?"

O que motiva a pergunta de Goldman?

Não são as dificuldades da economia internacional ou nacional.

Não é o apoio congressual nem a capacidade de gestão.

O que motiva a pergunta de Goldman é a composição social do eleitorado de Dilma.

Segundo Goldman, no primeiro turno "o Brasil rejeitou o PT". 

E prossegue: "Dilma recebeu 41,5 % dos votos válidos no primeiro turno das eleições. Os restantes são 58,5%, somando-se Aécio, Marina e os nanicos. Todos, sem dúvida, que fazem oposição ao PT. Os brancos e nulos não computados nessa conta ( 9% do total de eleitores) e parte das abstenções ( 19% do eleitorado) têm, também, um caráter de rejeição".

Se Goldman ficasse por aqui, seu texto seria apenas acaciano. 

Pois é óbvio que se temos segundo turno, é porque ninguém teve maioria absoluta no primeiro.

E o sistema eleitoral em dois turnos permite exatamente que alguém se eleja, com maioria relativa ou absoluta, graças aos votos de quem fez outra opção no primeiro turno.

Em 2002, 2006 e 2010, Lula e Dilma não tiveram maioria absoluta no primeiro turno. Mas ganharam o segundo turno. E governaram o país.

Ao compararmos os oito anos de FHC-vitorioso-no-primeiro-turno com os oitos anos de Lula-vitorioso-no-segundo turno, constatamos que ter maioria de votos já no primeiro turno influi, mas não determina a governabilidade, muito menos o conteúdo e o êxito de uma administração.

Acontece que o questionamento de Goldman é de fundo, bem fundo, fundo mesmo: ele não considera que os votos em Dilma tenham o mesmo valor que os votos dados a Aécio.

Reproduzo as palavras de Goldman: "O Brasil do trabalho formal, produtivo, dos seus trabalhadores e empresários, no campo e na cidade, o Brasil da cultura e da tecnologia –essa é, de fato, a elite brasileira – rejeitou, por ampla maioria, o PT e sua candidata. Deu mais votos à Aécio e Marina. Os outros, com todos os direitos que lhes devem ser garantidos e com toda a proteção social que a sociedade lhes deve, são os excluídos. Deram a maioria dos votos à Dilma."

E aí vem o corolário: "A pergunta que qualquer pessoa intelectualmente honesta deve se fazer é se com esse perfil político do eleitorado, ainda que vitoriosa nas urnas, Dilma teria condições de governar o Brasil?"

Cientificamente, o raciocínio de Goldman é baseado em vários sofismas, meias verdades e mentiras completas acerca do "mapa de votação" e da estrutura de classes existente no país.

Aliás, neste terreno científico, o raciocínio de Goldman tem paradoxais afinidades eletivas com um raciocínio incorreto cometido por nossa campanha, quando insistimos em cortejar e almejar um país "majoritariamente classe média".

Mas o problema principal de Goldman não está na "ciência pura", mas nos seus desdobramentos políticos: o raciocínio deste tucano é potencialmente golpista.

Afinal, qualquer pessoa "intelectualmente honesta" consegue perceber que a tese de fundo, bem fundo, fundo mesmo de Goldman é a seguinte: o voto do pobre não é tão legítimo assimE como o voto do pobre não é tão legítimo assim, o governo dele resultante tampouco será tão legítimo assim. 

Por isto é que Goldman questiona se Dilma, "ainda que vitoriosa nas urnas, teria condições de governar o Brasil?"

Se o pensamento de Goldman for hegemônico na cúpula tucana, o pós-eleitoral será mesmo muito tenso.

Sendo assim, não basta vencer as eleições.

Temos que vencer com uma diferença que contenha o golpista potencial que existe na alma de certos tucanos.

Por isto, nas vésperas do day after, temos que ampliar ao máximo a diferença pró-Dilma; coesionar ao máximo a frente democrática contra o retrocesso neoliberal; e alertar as camadas populares, os setores democráticos, progressistas, de esquerda, socialistas, sobre o que pode estar sendo planejado pelo lado de lá.

No mesmo sentido, devemos estar preparados para de tudo um pouco, seja na campanha de rua, seja no debate na Globo, seja nos meios de comunicação, seja nas pesquisas, seja no acesso dos eleitores às urnas, seja no momento da totalização e divulgação dos resultados.

Para que o day after seja uma grande festa do povo, é preciso lembrar que prudens cum cura vivit, stultus sine cura.

Para quem não entende latim e está sem acesso ao tradutor automático, basta o seguinte:

*nós, cum cura;

*eles, sine cura.


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Siqueira tem saudade de Meirelles!!!!

Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, o novo presidente nacional do Partido Socialista Brasileiro, o senhor Carlos Siqueira, tenta explicar o apoio de seu partido à candidatura de Aécio Neves.

Segundo Carlos Siqueira, "para que se possa compreender as razões que levaram o Partido Socialista Brasileiro a optar pelo apoio programático à candidatura de Aécio Neves é preciso partir de um elemento de realidade. Esse elemento já estava posto quando o saudoso governador Eduardo Campos decidiu protagonizar a luta pela mudança da qualidade da práxis política: as realizações do PT de Lula não são as mesmas de Dilma Rousseff".

Esperávamos que na sequência Siqueira apontasse as supostas ou reais diferenças programáticas entre os governos Lula e Dilma, e justificasse a partir daí um apoio programático a quem fez oposição tanto ao "PT de Lula" quanto a Dilma.

Mas não é isso que vem na sequência.

O que vem na sequência é uma catilinária sobre o "envelhecimento de ideais, inerente à permanência no poder. Esse processo de fadiga prática e teórica leva, não raro, à aristocratização de lideranças que, na origem, eram comprometidas com as causas populares. Ou seja, o PT que está no poder há 12 anos envelheceu e se afastou de sua base social e de seus ideais políticos".

Deixo registrado que este mesmo raciocínio não foi aplicado no estado de São Paulo, onde o PSB apoiou a reeleição do governador Geraldo Alckmin, senhor das águas e da falta de água.

Talvez os tucanos envelheçam melhor ou não envelheçam (Oscar Wilde?).

Supondo que seja verdade que há uma fadiga de material, ainda assim qual a justificativa programática para apoiar no segundo turno quem se opõe não apenas a Dilma em 2010 e 2014, mas também se opôs ao PT e a Lula em 1994, 1998, 2002 e 2006?

Siqueira argumenta o seguinte: "impunha-se, portanto, como tarefa política, criar para os brasileiros uma oportunidade concreta de alternância. Esse é um princípio básico do regime democrático, ao qual nosso partido se engajou sem qualquer ambivalência já no momento de sua fundação, em 1947".

O "portanto" aí é pura prestidigitação retórica: voce lê o portanto, acha que uma coisa leva a outra, quanto na verdade o autor está mudando de assunto, está deixando de lado qualquer debate explícito sobre o programa e passando a discutir outra coisa. A saber, a tal "alternância".

Ao tratar do tema, Siqueira confunde o direito à alternância com a natureza da alternância. 

O direito à alternância é garantido pelas liberdades democráticas, que permitem ao povo eleger e não eleger seus governantes. 

Mas qual a natureza da alternância? 

Uma pessoa ser substituída por outra? Um partido ser substituído por outro? A esquerda ser substituída pela direita? Uma desenvolvimentista por um neoliberal? Um democrata ser substituído por um fascista?

A defesa em abstrato da alternância, desconsiderando o conteúdo do projeto de cada partido/governo/governante, pode levar a opções absurdas, inaceitáveis como algumas das citadas no parágrafo acima. 

Por isto, para evitar este tipo de desfecho absurdo, é imprescindível distinguir o direito à alternância, do conteúdo concreto da alternância.

Siqueira sabe disto, penso eu, mas ele está obnubilado pelo discurso de 9 em cada 10 direitistas deste país: derrotar o PT em defesa da.... democracia, da ordem, dos bons costumes, da honestidade, do bom gosto e principalmente do direito de enriquecer sem olhar o que está acontecendo com os pobres e com os trabalhadores.

Tanto é assim que a contradição programática, para ele, vira um mero "complemento". Pois o essencial para ele, o que vem em primeiro lugar, é derrotar o PT (a tal "alternância").

Reparem na frase: "Nota-se, em complemento, que a aproximação com o PSDB não é incondicional e que está amparada por diretrizes programáticas baseadas em sugestões do PSB. Daí a nossa firme decisão de apoiar de forma entusiástica a candidatura de Aécio Neves à Presidência da República".

Divertido, não? Não é incondicional, mas é entusiástica.

E por qual motivo não é incondicional? Porque, conforme Siqueira deixa implícito, o PSDB é o partido do "favorecimento do grande capital", da "renúncia à soberania nacional" e da "aliança com o capital financeiro internacional".

E apesar disto tudo, o apoio é entusiástico!!!

A forçada de barra é tão grande, que ele é obrigado a usar uma desculpa. 

E a desculpa é a seguinte: "o petismo que chegou ao poder se valeu de um quadro ligado à banca internacional e eleito deputado federal pelo PSDB, Henrique Meirelles, para comandar o Banco Central. Sua política no BC assegurou ganhos extraordinários às instituições financeiras nacionais e internacionais".

Vamos supor que o PT chegou ao "poder".

E vamos reconhecer que especialmente entre 2003 e 2005, Henrique Meirelles teve poderes que nunca deveria ter tido, numa presidência do BC para a qual ele nunca deveria ter sido nomeado.

Mas mesmo supondo isto tudo, ainda cabe perguntar: um petista ter aceito um tucano na presidência do BC é justificativa para um socialista defender um tucano na presidência da República???

Só pode responder positivamente esta pergunta, quem gostou tanto da política do tucano na presidência do BC, que agora quer estender a tucanagem para o conjunto do governo federal.

Talvez seja este, para Siqueira, o grande defeito de Dilma: não ter Meirelles na presidência do BC!!!

Que tipo de "possibilidade libertária" isto nos traria, só Milton Friedman pode explicar.




Segue abaixo o texto criticado:

O PSB contra o maniqueísmo - Carlos Siqueira – Folha de S.Paulo 
Para que se possa compreender as razões que levaram o Partido Socialista Brasileiro a optar pelo apoio programático à candidatura de Aécio Neves é preciso partir de um elemento de realidade. Esse elemento já estava posto quando o saudoso governador Eduardo Campos decidiu protagonizar a luta pela mudança da qualidade da práxis política: as realizações do PT de Lula não são as mesmas de Dilma Rousseff.
O diagnóstico não tinha por fundamento os nomes ou as habilidades de cada um. Referia-se de forma direta ao fato apontado por vários teóricos da política, segundo o qual há um envelhecimento de ideais, inerente à permanência no poder. Esse processo de fadiga prática e teórica leva, não raro, à aristocratização de lideranças que, na origem, eram comprometidas com as causas populares. Ou seja, o PT que está no poder há 12 anos envelheceu e se afastou de sua base social e de seus ideais políticos.
Impunha-se, portanto, como tarefa política, criar para os brasileiros uma oportunidade concreta de alternância. Esse é um princípio básico do regime democrático, ao qual nosso partido se engajou sem qualquer ambivalência já no momento de sua fundação, em 1947.
Essa qualificação pode parecer estranha, mas é relevante no contexto de época e também na atualidade, quando se tenta sacrificar um princípio do regime democrático em nome de uma tentativa de apropriação das causas populares por uma única agremiação partidária, neste caso o PT. Ora, os que de fato são democratas não podem partilhar da ideia de uma democracia condicional, ou seja, que só é boa quando as forças pelas quais militam vencem.
A análise qualificada do cenário político exige deixar de lado o maniqueísmo simplório, que, ao longo de toda a história, justificou os totalitarismos à direita e à esquerda. Nesse sentido, o PSB se mantém fiel às suas tradições e recusa as pechas que servem a um discurso que se aproxima dos malfadados ideais do partido único.
Nota-se, em complemento, que a aproximação com o PSDB não é incondicional e que está amparada por diretrizes programáticas baseadas em sugestões do PSB. Daí a nossa firme decisão de apoiar de forma entusiástica a candidatura de Aécio Neves à Presidência da República.
Quanto às questões que maculariam nossa coligação com o PSDB --favorecimento do grande capital, renúncia à soberania nacional e aliança com o capital financeiro internacional--, basta recordar que o petismo que chegou ao poder se valeu de um quadro ligado à banca internacional e eleito deputado federal pelo PSDB, Henrique Meirelles, para comandar o Banco Central. Sua política no BC assegurou ganhos extraordinários às instituições financeiras nacionais e internacionais.
O fato de o PSB não se ver na condição de proprietário da verdade lhe permite entender que há uma possibilidade libertária. Isso quer dizer, na atual conjuntura, desfazer o equívoco de que o futuro já tenha sido totalmente inventado por um único sujeito político.
O futuro que vislumbramos guarda diferentes ordens de possibilidades e nos orientamos em direção a ele tendo por farol nossos valores históricos e democráticos, e não a adesão acrítica a ideais que não nos pertencem.
Eduardo Campos compreendeu que um ciclo hegemônico se esgotara e com ele o dinamismo de nosso desenvolvimento econômico e social. O PSB, que sempre se posicionou em prol das causas populares, teve a coragem de extrair de sua leitura de conjuntura as devidas consequências políticas.
Precisamos recompor os fundamentos que permitirão melhorar a qualidade de vida de nossa gente. Para isso, é preciso ter a ousadia da mudança!