CAMARADAS

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Nas vésperas

Pode haver muita tensão pós-eleitoral.

Seja por atos agressivos de aecistas.

Seja por decisão política da campanha tucana, frente à uma quarta derrota presidencial consecutiva.

Não sei dizer qual será a posição do conjunto da cúpula tucana.

Mas já sabemos qual é a posição de um de seus integrantes: Alberto Goldman. 

Esta posição, que já foi criticada por Breno Altman, está disponível no seguinte texto:

http://www.psdb.org.br/o-brasil-rejeitou-o-pt-dilma-nao-teria-condicoes-de-governar-o-brasil-por-alberto-goldman/

A crítica de Breno Altman está aqui: 

http://operamundi.uol.com.br/brenoaltman/2014/10/20/tucanos-flertam-com-golpismo/


No final de seu texto, Goldman pergunta o seguinte: "ainda que vitoriosa nas urnas, Dilma teria condições de governar o Brasil?"

O que motiva a pergunta de Goldman?

Não são as dificuldades da economia internacional ou nacional.

Não é o apoio congressual nem a capacidade de gestão.

O que motiva a pergunta de Goldman é a composição social do eleitorado de Dilma.

Segundo Goldman, no primeiro turno "o Brasil rejeitou o PT". 

E prossegue: "Dilma recebeu 41,5 % dos votos válidos no primeiro turno das eleições. Os restantes são 58,5%, somando-se Aécio, Marina e os nanicos. Todos, sem dúvida, que fazem oposição ao PT. Os brancos e nulos não computados nessa conta ( 9% do total de eleitores) e parte das abstenções ( 19% do eleitorado) têm, também, um caráter de rejeição".

Se Goldman ficasse por aqui, seu texto seria apenas acaciano. 

Pois é óbvio que se temos segundo turno, é porque ninguém teve maioria absoluta no primeiro.

E o sistema eleitoral em dois turnos permite exatamente que alguém se eleja, com maioria relativa ou absoluta, graças aos votos de quem fez outra opção no primeiro turno.

Em 2002, 2006 e 2010, Lula e Dilma não tiveram maioria absoluta no primeiro turno. Mas ganharam o segundo turno. E governaram o país.

Ao compararmos os oito anos de FHC-vitorioso-no-primeiro-turno com os oitos anos de Lula-vitorioso-no-segundo turno, constatamos que ter maioria de votos já no primeiro turno influi, mas não determina a governabilidade, muito menos o conteúdo e o êxito de uma administração.

Acontece que o questionamento de Goldman é de fundo, bem fundo, fundo mesmo: ele não considera que os votos em Dilma tenham o mesmo valor que os votos dados a Aécio.

Reproduzo as palavras de Goldman: "O Brasil do trabalho formal, produtivo, dos seus trabalhadores e empresários, no campo e na cidade, o Brasil da cultura e da tecnologia –essa é, de fato, a elite brasileira – rejeitou, por ampla maioria, o PT e sua candidata. Deu mais votos à Aécio e Marina. Os outros, com todos os direitos que lhes devem ser garantidos e com toda a proteção social que a sociedade lhes deve, são os excluídos. Deram a maioria dos votos à Dilma."

E aí vem o corolário: "A pergunta que qualquer pessoa intelectualmente honesta deve se fazer é se com esse perfil político do eleitorado, ainda que vitoriosa nas urnas, Dilma teria condições de governar o Brasil?"

Cientificamente, o raciocínio de Goldman é baseado em vários sofismas, meias verdades e mentiras completas acerca do "mapa de votação" e da estrutura de classes existente no país.

Aliás, neste terreno científico, o raciocínio de Goldman tem paradoxais afinidades eletivas com um raciocínio incorreto cometido por nossa campanha, quando insistimos em cortejar e almejar um país "majoritariamente classe média".

Mas o problema principal de Goldman não está na "ciência pura", mas nos seus desdobramentos políticos: o raciocínio deste tucano é potencialmente golpista.

Afinal, qualquer pessoa "intelectualmente honesta" consegue perceber que a tese de fundo, bem fundo, fundo mesmo de Goldman é a seguinte: o voto do pobre não é tão legítimo assimE como o voto do pobre não é tão legítimo assim, o governo dele resultante tampouco será tão legítimo assim. 

Por isto é que Goldman questiona se Dilma, "ainda que vitoriosa nas urnas, teria condições de governar o Brasil?"

Se o pensamento de Goldman for hegemônico na cúpula tucana, o pós-eleitoral será mesmo muito tenso.

Sendo assim, não basta vencer as eleições.

Temos que vencer com uma diferença que contenha o golpista potencial que existe na alma de certos tucanos.

Por isto, nas vésperas do day after, temos que ampliar ao máximo a diferença pró-Dilma; coesionar ao máximo a frente democrática contra o retrocesso neoliberal; e alertar as camadas populares, os setores democráticos, progressistas, de esquerda, socialistas, sobre o que pode estar sendo planejado pelo lado de lá.

No mesmo sentido, devemos estar preparados para de tudo um pouco, seja na campanha de rua, seja no debate na Globo, seja nos meios de comunicação, seja nas pesquisas, seja no acesso dos eleitores às urnas, seja no momento da totalização e divulgação dos resultados.

Para que o day after seja uma grande festa do povo, é preciso lembrar que prudens cum cura vivit, stultus sine cura.

Para quem não entende latim e está sem acesso ao tradutor automático, basta o seguinte:

*nós, cum cura;

*eles, sine cura.


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Siqueira tem saudade de Meirelles!!!!

Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, o novo presidente nacional do Partido Socialista Brasileiro, o senhor Carlos Siqueira, tenta explicar o apoio de seu partido à candidatura de Aécio Neves.

Segundo Carlos Siqueira, "para que se possa compreender as razões que levaram o Partido Socialista Brasileiro a optar pelo apoio programático à candidatura de Aécio Neves é preciso partir de um elemento de realidade. Esse elemento já estava posto quando o saudoso governador Eduardo Campos decidiu protagonizar a luta pela mudança da qualidade da práxis política: as realizações do PT de Lula não são as mesmas de Dilma Rousseff".

Esperávamos que na sequência Siqueira apontasse as supostas ou reais diferenças programáticas entre os governos Lula e Dilma, e justificasse a partir daí um apoio programático a quem fez oposição tanto ao "PT de Lula" quanto a Dilma.

Mas não é isso que vem na sequência.

O que vem na sequência é uma catilinária sobre o "envelhecimento de ideais, inerente à permanência no poder. Esse processo de fadiga prática e teórica leva, não raro, à aristocratização de lideranças que, na origem, eram comprometidas com as causas populares. Ou seja, o PT que está no poder há 12 anos envelheceu e se afastou de sua base social e de seus ideais políticos".

Deixo registrado que este mesmo raciocínio não foi aplicado no estado de São Paulo, onde o PSB apoiou a reeleição do governador Geraldo Alckmin, senhor das águas e da falta de água.

Talvez os tucanos envelheçam melhor ou não envelheçam (Oscar Wilde?).

Supondo que seja verdade que há uma fadiga de material, ainda assim qual a justificativa programática para apoiar no segundo turno quem se opõe não apenas a Dilma em 2010 e 2014, mas também se opôs ao PT e a Lula em 1994, 1998, 2002 e 2006?

Siqueira argumenta o seguinte: "impunha-se, portanto, como tarefa política, criar para os brasileiros uma oportunidade concreta de alternância. Esse é um princípio básico do regime democrático, ao qual nosso partido se engajou sem qualquer ambivalência já no momento de sua fundação, em 1947".

O "portanto" aí é pura prestidigitação retórica: voce lê o portanto, acha que uma coisa leva a outra, quanto na verdade o autor está mudando de assunto, está deixando de lado qualquer debate explícito sobre o programa e passando a discutir outra coisa. A saber, a tal "alternância".

Ao tratar do tema, Siqueira confunde o direito à alternância com a natureza da alternância. 

O direito à alternância é garantido pelas liberdades democráticas, que permitem ao povo eleger e não eleger seus governantes. 

Mas qual a natureza da alternância? 

Uma pessoa ser substituída por outra? Um partido ser substituído por outro? A esquerda ser substituída pela direita? Uma desenvolvimentista por um neoliberal? Um democrata ser substituído por um fascista?

A defesa em abstrato da alternância, desconsiderando o conteúdo do projeto de cada partido/governo/governante, pode levar a opções absurdas, inaceitáveis como algumas das citadas no parágrafo acima. 

Por isto, para evitar este tipo de desfecho absurdo, é imprescindível distinguir o direito à alternância, do conteúdo concreto da alternância.

Siqueira sabe disto, penso eu, mas ele está obnubilado pelo discurso de 9 em cada 10 direitistas deste país: derrotar o PT em defesa da.... democracia, da ordem, dos bons costumes, da honestidade, do bom gosto e principalmente do direito de enriquecer sem olhar o que está acontecendo com os pobres e com os trabalhadores.

Tanto é assim que a contradição programática, para ele, vira um mero "complemento". Pois o essencial para ele, o que vem em primeiro lugar, é derrotar o PT (a tal "alternância").

Reparem na frase: "Nota-se, em complemento, que a aproximação com o PSDB não é incondicional e que está amparada por diretrizes programáticas baseadas em sugestões do PSB. Daí a nossa firme decisão de apoiar de forma entusiástica a candidatura de Aécio Neves à Presidência da República".

Divertido, não? Não é incondicional, mas é entusiástica.

E por qual motivo não é incondicional? Porque, conforme Siqueira deixa implícito, o PSDB é o partido do "favorecimento do grande capital", da "renúncia à soberania nacional" e da "aliança com o capital financeiro internacional".

E apesar disto tudo, o apoio é entusiástico!!!

A forçada de barra é tão grande, que ele é obrigado a usar uma desculpa. 

E a desculpa é a seguinte: "o petismo que chegou ao poder se valeu de um quadro ligado à banca internacional e eleito deputado federal pelo PSDB, Henrique Meirelles, para comandar o Banco Central. Sua política no BC assegurou ganhos extraordinários às instituições financeiras nacionais e internacionais".

Vamos supor que o PT chegou ao "poder".

E vamos reconhecer que especialmente entre 2003 e 2005, Henrique Meirelles teve poderes que nunca deveria ter tido, numa presidência do BC para a qual ele nunca deveria ter sido nomeado.

Mas mesmo supondo isto tudo, ainda cabe perguntar: um petista ter aceito um tucano na presidência do BC é justificativa para um socialista defender um tucano na presidência da República???

Só pode responder positivamente esta pergunta, quem gostou tanto da política do tucano na presidência do BC, que agora quer estender a tucanagem para o conjunto do governo federal.

Talvez seja este, para Siqueira, o grande defeito de Dilma: não ter Meirelles na presidência do BC!!!

Que tipo de "possibilidade libertária" isto nos traria, só Milton Friedman pode explicar.




Segue abaixo o texto criticado:

O PSB contra o maniqueísmo - Carlos Siqueira – Folha de S.Paulo 
Para que se possa compreender as razões que levaram o Partido Socialista Brasileiro a optar pelo apoio programático à candidatura de Aécio Neves é preciso partir de um elemento de realidade. Esse elemento já estava posto quando o saudoso governador Eduardo Campos decidiu protagonizar a luta pela mudança da qualidade da práxis política: as realizações do PT de Lula não são as mesmas de Dilma Rousseff.
O diagnóstico não tinha por fundamento os nomes ou as habilidades de cada um. Referia-se de forma direta ao fato apontado por vários teóricos da política, segundo o qual há um envelhecimento de ideais, inerente à permanência no poder. Esse processo de fadiga prática e teórica leva, não raro, à aristocratização de lideranças que, na origem, eram comprometidas com as causas populares. Ou seja, o PT que está no poder há 12 anos envelheceu e se afastou de sua base social e de seus ideais políticos.
Impunha-se, portanto, como tarefa política, criar para os brasileiros uma oportunidade concreta de alternância. Esse é um princípio básico do regime democrático, ao qual nosso partido se engajou sem qualquer ambivalência já no momento de sua fundação, em 1947.
Essa qualificação pode parecer estranha, mas é relevante no contexto de época e também na atualidade, quando se tenta sacrificar um princípio do regime democrático em nome de uma tentativa de apropriação das causas populares por uma única agremiação partidária, neste caso o PT. Ora, os que de fato são democratas não podem partilhar da ideia de uma democracia condicional, ou seja, que só é boa quando as forças pelas quais militam vencem.
A análise qualificada do cenário político exige deixar de lado o maniqueísmo simplório, que, ao longo de toda a história, justificou os totalitarismos à direita e à esquerda. Nesse sentido, o PSB se mantém fiel às suas tradições e recusa as pechas que servem a um discurso que se aproxima dos malfadados ideais do partido único.
Nota-se, em complemento, que a aproximação com o PSDB não é incondicional e que está amparada por diretrizes programáticas baseadas em sugestões do PSB. Daí a nossa firme decisão de apoiar de forma entusiástica a candidatura de Aécio Neves à Presidência da República.
Quanto às questões que maculariam nossa coligação com o PSDB --favorecimento do grande capital, renúncia à soberania nacional e aliança com o capital financeiro internacional--, basta recordar que o petismo que chegou ao poder se valeu de um quadro ligado à banca internacional e eleito deputado federal pelo PSDB, Henrique Meirelles, para comandar o Banco Central. Sua política no BC assegurou ganhos extraordinários às instituições financeiras nacionais e internacionais.
O fato de o PSB não se ver na condição de proprietário da verdade lhe permite entender que há uma possibilidade libertária. Isso quer dizer, na atual conjuntura, desfazer o equívoco de que o futuro já tenha sido totalmente inventado por um único sujeito político.
O futuro que vislumbramos guarda diferentes ordens de possibilidades e nos orientamos em direção a ele tendo por farol nossos valores históricos e democráticos, e não a adesão acrítica a ideais que não nos pertencem.
Eduardo Campos compreendeu que um ciclo hegemônico se esgotara e com ele o dinamismo de nosso desenvolvimento econômico e social. O PSB, que sempre se posicionou em prol das causas populares, teve a coragem de extrair de sua leitura de conjuntura as devidas consequências políticas.
Precisamos recompor os fundamentos que permitirão melhorar a qualidade de vida de nossa gente. Para isso, é preciso ter a ousadia da mudança!

A caixa de gordura

Respeito e entendo quem está se sentindo desconfortável com o nível dos dois debates presidenciais ocorridos neste segundo turno.

Desconheço qual a avaliação da coordenação da campanha e o que dizem as pesquisas a respeito.

Isto posto, minha opinião pessoal é a seguinte: no dia-a-dia da campanha, cada um de nós sabe qual o nível do debate e qual o nível das acusações a que estamos sendo submetidos nas ruas e nas redes.

Nelas, o debate "de alto nível" sobre os dois projetos é convertido a seus termos mais simples: verdade e mentira, honestidade e falsidade, tolerância e preconceito, pobre e rico, trabalhador e explorador, vida e morte...

Sendo estas as condições escolhidas pelo lado de lá, considero inevitável que, sem deixar de falar nos dois projetos, sejamos obrigados a desmascarar, tanto como pessoa jurídica quanto física, uma candidatura que se comporta como "pombo enxadrista" (ver ilustração ao final).

Insisto neste ponto: as condições da disputa foram escolhidas pelo lado de lá. Escolhidas conscientemente, pois incapazes de defender seu passado e impossibilitados de apresentar qual futuro propõem, lhes resta radicalizar "contra tudo isto que está aí", mesmo que para isto tenham que distorcer os fatos.

Esta é a escolha feita pela maioria dos meios de comunicação, quando maximizam os problemas (reais ou supostos) do PT e de seus governos, quando minimizam ao máximo os problemas do PSDB e de suas administrações (veja o caso da água em São Paulo), quando publicam as "afirmações" de Aécio enquanto criticam as "alegações" de Dilma, quando invertem o ônus da prova...

Esta é a escolha feita pelo próprio Aécio, que se comporta como aquele assaltante que grita "pega ladrão" para disfarçar seu malfeito.

Esta é a escolha feita por 9 em cada 10 militantes da candidatura Aécio, que repercutem todo tipo de mentira e ofensa, e cada vez mais partem para a ignorância.

Aliás, o candidato das elites não é quem é, nem é como é, por acaso. Ele é produto da "seleção natural" que gerou centenas de milhares como ele: filhinhos de papai, coxinhas, mauricinhos, toda a fauna e flora playboy, com seus conhecidos hábitos pessoais, seu nepotismo e seu repertório de violência verbal e física.

É repugnante (e aqui vai toda minha solidariedade à presidenta Dilma) ter que desmascarar tudo isto. Mais lamentável ainda, contudo, é não deixar claro que o ser Aécio resume a conduta política de toda uma segmento social. Quem o vê nos debates, reconhece logo o tipo: valentão de boutique, grosseiro com os pobres e servil com os ricos.

Como disse no início, não tenho elementos objetivos para julgar os efeitos eleitorais dos dois confrontos diretos ocorridos neste segundo turno. 

Mas animicamente acho reconfortante ver que nossa principal militante sabe que estamos enfrentando um gangsterismo estilo Al Capone; sabe que não ganharemos com performances a la Woodstock; sabe que estamos num daqueles momentos em que o exemplo pessoal da comandante ajuda muito no ânimo dos combatentes  (http://valterpomar.blogspot.com.br/2014/10/alemao.html).

Limpar a caixa de gordura espalha um cheiro ruim pela casa. Mas depois da limpeza, o cheiro passa. Já a outra alternativa...



domingo, 12 de outubro de 2014

Alemão

Li recentemente, mas o alemão me impede recordar a fonte: num combate, um dos momentos mais perigosos ocorre quando as tropas de um exército estão prestes a se chocar com as tropas do exército inimigo.

Quando o ataque começa, há aquele entusiasmo. Mas durante o ataque, o bombardeio inimigo, as primeiras baixas, a visão da trincheira adversária, o barulho infernal... tudo isto gera nos soldados um medo crescente.

O medo aumenta, a cada passo dado em direção ao momento em que vai ocorrer o choque entre os dois exércitos. Esta é a hora do risco máximo, em que o ataque pode virar retirada, debandada, fuga.

Então, é importante a boa comunicação, através de cornetas, tambores, bandeiras e no gogó.

Mas o que importa mesmo é a segurança dos oficiais e a coragem dos atacantes. 

Nos exércitos normais, em que a soldadesca funciona com base na disciplina imposta, os oficiais pesam mais.

Nos exércitos populares, em que funciona a disciplina consciente, a moral da tropa é o mais importante.

Por moral da tropa, entenda-se: conhecer e estar convencido acerca das razões da luta, da justiça da causa.

O alemão me fez esquecer onde li isto. E também esqueci por qual motivo estou escrevendo isto agora. Mas se há alguma razão, haverão de entender.

ps. tem uma versão desmilitarizada desta história. Trata-se do grande nadador que foi atravessar um rio de grande extensão, a nado. Na metade do trajeto, no meio do rio, ele cansou e decidiu voltar. A nado.
















2018

Em 2010, na campanha eleitoral, eu ouvi que o melhor controle social da mídia seria o controle remoto.

Acontece que o oligopólio da mídia tem várias cabeças, mas fala uma só língua. E de pouco adianta mudar o canal.

Em 2013, lá na Quadra dos Bancários, durante o ato de inauguração do XIX Encontro do Foro de São Paulo, eu ouvi que os jornais estariam superados, que o futuro seria digital etc e tal.

Acontece que as redes não são tão democráticas e neutras como parecem ser. E, sem redações permanentes de nosso lado, quem define a pauta é o lado de lá. E se jornais e revistas semanais fossem instrumentos dispensáveis na luta política, por quais motivos a classe dominante investe tanto nos seus?

No início de 2014, eu ouvi que "venceríamos no primeiro turno", até porque nossos inimigos seriam "anões políticos".

A crença na vitória em primeiro turno eu já conhecia, de 2006 e de 2010. Nos dois casos, só serviu para produzir desânimo na tropa, quando chegou o segundo turno.

Já quanto aos "anões políticos", bom... 

Aécio é um playboy, o candidato perfeito dos coxinhas e das madames. Mas não é a primeira vez que a direita brasileira recorre, no desespero, a "salvadores da pátria". Ademais, como subestimar um inimigo que prosseguiu mesmo quando viu sua campanha virando pó? 

Lá para maio de 2014, foi a época das ilusões na chamada terceira via. 

Havia de tudo: os que achavam que a terceira via não ia ter candidato, os que achavam que se tivesse não decolaria, os que achavam que se decolasse poderia ser até melhor, os que achavam que a candidatura da terceira via poderia nos apoiar contra os tucanos....

Hoje sabemos onde foi parar a terceira via.

A partir de setembro de 2014, foi a vez das pesquisas. Cada uma que saia apontando que podíamos ganhar no primeiro turno, consumia energias imensas em discussões infindáveis... 

Agora, o mesmo: cada pesquisa que sai, gera também discussões infindáveis, consumindo energias que poderiam ser melhor aplicadas no debate político com a população.

Existem os que acreditam que, com nossos 10 minutos no programa de TV, seremos capazes de responder-bem-respondido cada uma das acusações feitas nas demais 23 horas e 50 minutos da programação...

Melhor, penso eu, utilizar nosso tempo demarcando os dois projetos e apontando ações de futuro que empolguem a classe trabalhadora, os setores populares, a juventude, as mulheres, os setores progressistas e de esquerda, todos os setores que vão garantir a nossa vitória.

Mas a pior das ilusões é a que ouvi, talvez não por coincidência, no Dia da Criança: se viéssemos a perder as eleições agora, voltaremos em 2018.

Bom, todo mundo é livre para sonhar. No caso, me fez lembrar uma história ilustrada da Segunda Guerra, da editora Renes, que eu lia quando tinha uns 10 anos.

Eram vários títulos: Tobruk, Guadacanal, Comandos, A batalha das Ardenas, O Dia D...

Dentre tantos, me impressionaram muito os que contavam a história da invasão da URSS. 

No começo, os nazistas entraram com tudo. Mas a partir de certo momento, a resistência foi crescendo e a ofensiva nazi foi perdendo energia.

Há mil e uma razões para isto. Mas nos livrinhos da Renes, era citada uma que nunca esqueci: os nazistas eram muito cruéis. 

Cruéis com o povo, pois eles consideravam que os eslavos eram um povo inferior. Para usar a linguagem de alguns coxinhas, os eslavos eram "nordestinos".

E cruéis com os oficiais do Exército e com os militantes do Partido, para quem havia ordens de fuzilamento sumário. Para usar a linguagem de algumas madames, eram "petralhas corruptos".

A crueldade nazista era tamanha, que num determinado momento da guerra não era mais necessário convencer ninguém: cada cidadão soviético, cada soldado raso, cada dirigente do governo ou do exército, sabia que a luta era de vida ou de morte.

Ou derrotavam os nazistas, ou seriam transformados em escravos por muitas e muitas gerações

Acho que esta convicção, entranhada em cada indivíduo, motivou boa parte da bravura, do empenho, do espírito de sacrifício, de milhões de combatentes que, no final das contas, ganharam a guerra e derrotaram os nazistas.

Isto posto, a quem fica se iludindo sobre 2018, eu prefiro dizer o seguinte: o caminho para ganhar em 2018 passa por ganhar em 2014

Se um feitiço entregasse a presidência ao playboy dos coxinhas e das madames, não acredito que viveríamos quatro anos normais e depois uma "eleição limpa".

Se um feitiço entregasse a presidência ao playboy dos coxinhas e das madames, o mais provável é que tivesse início um período de muitos anos de perseguição contra o povo, contra os sindicatos, contra os movimentos sociais, contra a esquerda, contra o PT e especificamente contra Lula.

Afinal, as elites aprenderam com 2005. Naquele ano, eles acharam que nós íamos sangrar, sangrar e perder nas eleições. E, de fato, nós sangramos, sangramos, mas também lutamos e ganhamos em 2006 e 2010.

Agora, se um feitiço desse a presidência ao playboy, é muito pouco provável que a direita cometesse o mesmo erro de 2005. Pelo contrário, tentariam criminalizar, processar e condenar o maior número possível de lideranças da esquerda. A começar por aquela que é a liderança mais querida pelo povo brasileiro.

Por tudo isto, não cabe ter nenhuma, absolutamente nenhuma ilusão no lado de lá. Eles já demonstraram várias vezes não ter limites.

É preciso que nossa militância, nosso eleitorado, nosso povo tenha muito claro o que está em jogo, até porque esta consciência aumenta o empenho que todos e todas estamos dedicando à reeleição de Dilma Rousseff.

E é desse empenho, do empenho de cada um dos milhões de brasileiras e brasileiros que sabem o que está em jogo, que virá nossa vitória no dia 26 de outubro. 















sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Resolução da direção nacional da Articulação de Esquerda

Página 13 divulga resolução aprovada pela direção nacional da Articulação de Esquerda, tendência petista.
1. Acertamos ao prever que a eleição seria muito provavelmente resolvida no segundo turno e que seria duríssima. Hoje parece desnecessário insistir nisto, mas é bom lembrar que a subestimação dos adversários (“são anões políticos”) e o salto alto (vitória no primeiro turno) prevaleceu até 13 de agosto. Estes erros não podem repetir-se no segundo turno.
2. Os resultados do primeiro turno confirmam: embora Dilma saia com vantagem, o resultado da eleição presidencial não está garantido.
3. A candidatura Aécio Neves conta com o apoio da extrema-direita, do oligopólio da mídia, da especulação financeira e de potências estrangeiras. A frente reacionária em torno de Aécio vocalizará os interesses dos setores hegemônicos do grande capital, nacional e internacional. Contará, também, com o apoio de setores que apoiaram outras candidaturas presidenciais, como é o caso do PV, do Pastor Everaldo e do PSB. Aécio fará de tudo, legal ou ilegal, para tentar nos derrotar. Portanto, precisamos estar política, organizativa e psicologicamente preparados para três semanas de guerra.
4. Mas tampouco devemos temer os adversários. O único que devemos temer são os “ufanistas-de-primeiro-turno” que agora se convertem em “derrotistas-de-segundo-turno”. Os números abaixo dão elementos importantes para nossa reflexão:
1º turno de 20141º turno de 2010
Dilma41,59%43.267.478Dilma46,91%47.651.434
Aécio33,55%34.897.206Serra32,61%33.132.283
Marina21,32%22.176.613Marina19,33%19.636.359
5. Os números do primeiro turno de 2014 (acima) são semelhantes aos do primeiro turno de 2010. Quem ficou impactado com os 33,55% de Aécio é porque acreditou nas pesquisas, mas esqueceu que em 2010 Serra já havia obtido 32,61%. O fundamental não são os índices, mas o movimento: Aécio vai ao segundo turno numa curva ascendente, o que pode favorecê-lo nas pesquisas iniciais do segundo turno, mas que pode ser revertida nas próximas semanas com a ampliação da mobilização social e demarcação programática de nossa parte.
6. Marina, por sua vez, aumentou tanto percentualmente quanto em votação absoluta, em relação ao resultado que teve em 2010. Mas o movimento é oposto: ela saiu politicamente menor. Apesar disto, o apoio dela, do PSB e do PV no segundo turno tem mais relevância política que estritamente eleitoral, pois com este apoio Aécio pretende tornar sua candidatura mais palatável a setores contrários às políticas tucanas.
7. Por isto mesmo, devemos dar especial atenção para os mais de 4 milhões de votos que nós perdemos, em relação as eleições de 2010. Neste sentido, nossas prioridades são: a) recuperar os eleitores que perdemos; b) atrair a parcela progressista do eleitorado de Marina; c) atrair parcela dos votos não válidos do primeiro turno; d) tentar manter neutros os demais segmentos.
8. Tomando como base as pesquisas de primeiro turno, consideramos que estes votos que perdemos são, no fundamental: a) socialmente, de jovens trabalhadores; b) residem nos grandes centros urbanos; c) politicamente são pessoas com simpatias à esquerda.
9. Para ganhar estes setores, será preciso manter a linha geral de campanha. A saber: mobilização máxima, politização máxima e máxima polarização programática. Mas não basta a comparação de governos. Será preciso apresentar propostas programáticas claras, que apontem o sentido geral do novo ciclo que se pretende abrir no segundo mandato Dilma com “mais mudança”. Entre estas propostas, destacamos:
a) reforma política, através de uma Constituinte exclusiva;
b) democratização da comunicação;
c) reforma tributária progressiva, com imposto sobre grandes fortunas;
d) 40 horas de jornada;
e) revisão do fator previdenciário;
f) criminalização da homofobia;
g) revisão dos índices de produtividade agrária.
h) revisão da Lei da Anistia, para punição dos torturadores e sequestradores.
10. Sem prejuízo das ações no sentido de neutralizar ou ganhar outros setores políticos e sociais, o esforço fundamental deve ser o de manter e ampliar o voto junto à classe trabalhadora, em especial a juventude trabalhadora.
11. Do ponto de vista geográfico, é preciso manter e ampliar os resultados obtidos; mas cabe atenção especial para a Grande São Paulo, bem como para alguns estados, como é claro São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Sul, onde ademais temos uma candidatura petista disputando o segundo turno.
12. A linha geral é: frente única contra a direita neoliberal. Neste sentido, a decisão da direção nacional do PSOL para o segundo turno, recomendando seus eleitores a não votar em Aécio e tomar livremente sua decisão, deve servir para que nós eleitores da Dilma peçamos o voto dos eleitores da Luciana Genro. Por outro lado, devemos buscar os votos dos eleitores progressistas e populares de Marina e de Eduardo Jorge. Para que esta frente única tenha êxito, reiteramos ser fundamental dar continuidade à correta guinada à esquerda dada pela campanha depois de 13 de agosto, assumindo fortemente os pontos programáticos que elencamos acima e explicando de forma didática para a população as consequências práticas da opção neoliberal do tucanato.
13. A ampliação da campanha é fundamental para neutralizar o “programa mínimo” da oposição, que será o anti-petismo. E é preciso perceber que, em estados como o São Paulo, o anti-petismo contaminou também setores populares.
14. Para enfrentar o ódio e a desinformação, será preciso aliar a firmeza no combate aos inimigos com a paciência no diálogo com os setores populares e aliados que tem críticas a nós. Por isto é fundamental realizar mutirões, visitas de casa em casa, atividades nos bairros populares onde possamos não apenas falar, mas também ouvir.
15. Será necessário, também, estar especialmente atento para as agressões, armações e manipulações, a começar pelas pesquisas.
16. A experiência do primeiro turno mostrou que as pesquisas continuam sendo um instrumento fundamental no ânimo e motivação da militância. Mas as eleições também mostraram que as pesquisas estão sendo manipuladas e/ou contém falhas metodológicas gravíssimas, motivos pelos quais elas não podem substituir nunca a análise política.
17. As direções estaduais, municipais, setoriais, núcleos, comitês de candidaturas, devem convocar ao longo das próximas semanas várias plenárias de mobilização com petistas, simpatizantes e eleitores.
18. Devemos convidar para estas plenárias toda a esquerda, todas as forças democráticas e populares, todos os setores progressistas, todos aqueles que não participam ou são oposição ao governo encabeçado por nós, mas que não desejam uma restauração neoliberal.
19.Certamente será necessário um profundo balanço da situação geral do Partido, debilidades e diferenças. Mas o momento para fazer isto é depois de concluída a batalha presidencial e as batalhas pelos governos onde estivermos no segundo turno.
20. O povo brasileiro, a classe trabalhadora e a esquerda socialista estão muito perto de conquistar mais uma importante vitória, reelegendo a presidenta Dilma Rousseff e criando as condições para um segundo mandato superior, alinhado com as reformas democráticas e populares. Mas para atingir estes objetivos será preciso, mais do que nunca, manter a guarda alta, o salto baixo e fazer uma defesa firme de nossas bandeiras.

08 de outubro de 2014
A direção nacional da Articulação de Esquerda

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Como trocar a roda, com o carro em movimento?

A "onda conservadora" é um tema presente em muitas análise das eleições 2014.

Presente, especialmente, naqueles analistas que superestimaram os aspectos progressistas dasas manifestações de junho de 2013, minimizando o fato delas não serem homogêneas nem organizadas e, principalmente, terem produzido uma reação por parte da direita política e midiática, seja para "interpretar" seu significado, seja para neutralizar eventuais desdobramentos positivos.

Presente, também com destaque, nas preocupações daqueles que subestimaram os nossos adversários nas eleições presidenciais de 2014, acreditando em vitória no primeiro turno e outras quimeras do estilo.

Presente com força, finalmente, naqueles que destacam o que ocorreu no legislativo (redução do número total de deputados da esquerda e eleição bem-votada de porta-vozes da pior direita), minimizando o resultado que obtivemos na eleição presidencial, contra quase tudo e contra quase todos (e inclusive contra alguns da mal denominada base aliada).

Isto posto, a onda conservadora existe, suas raízes vem de 2003 e não pode ser subestimada. Tampouco superestimada, sob pena de pessimismo, derrotismo e desmobilização, na linha da profecia auto-anunciada.

A respeito, recomendo ler o texto "Onda conservadora", de Guilherme Boulos (reproduzo na íntegra ao final).


Segundo Boulos, o "último domingo revelou eleitoralmente um fenômeno que já se observava ao menos desde 2013 na política brasileira: a ascensão de uma onda conservadora. Conservadora não no sentido de manter o que está aí, mas no pior viés do conservadorismo político, econômico e moral. Uma virada à direita. Talvez, o recente período democrático brasileiro não tenha presenciado ainda um Congresso tão atrasado como o que foi agora eleito. O que já era ruim ficará ainda pior". 

Boulos nota que São Paulo, que foi o berço das mobilizações de junho de 2013, foi também base fundamental desta virada a direita. "Contradição? Nem tanto": "Por um lado, as jornadas de junho expressaram uma descrença de que as transformações populares se darão por dentro destas instituições. Foram sintoma de uma aguda crise urbana, traduzida no tema da mobilidade. E deixaram um legado positivo com o crescimento das mobilizações populares, ocupações e greves no último período. Esta vertente esquerdista de junho talvez tenha se manifestado eleitoralmente –além da votação no PSOL– pelo aumento das abstenções e votos inválidos. Neste ano somaram 29,03%, mais do que os 26,93% do primeiro turno de 2010 e do que os 26,79% que definem a média das eleições brasileiras desde 1994".

Aqui há um ponto que eu gostaria de destacar. Nas atuais condições históricas, uma estratégia socialista deve combinar ruas e urnas, mobilização social e presença institucional, movimentos e partidos. 

A descrença em transformações "por dentro" das instituições, se conduzir à abstenção eleitoral e a invalidar os votos, se for acompanhada de um movimentismo "sem partido", não vai conduzir a transformação alguma. 

Mutatis mutandis, a ideia de transformação "por dentro", se não for combinada com a mobilização social, tampouco conduzirá à transformação. Por isto, aliás, é que devemos apontar que o esquerdismo e a esquerda moderada cometem erros simétricos.

Voltemos a Boulos: "junho teve outra vertente, que deixou rescaldos mais marcantes. A direita saiu do armário". (...) "Isso tudo se sintetizou num antipetismo feroz que correu o país. As ofensas a Dilma em estádios da Copa apenas repetiram o cântico que foi ecoado nas ruas meses antes".

Sim, este é o fato, a direita saiu do armário. Mas por qual motivo este fato ocorreu? 

Na minha opinião, por motivos similares aos da eleição de Tancredo & Sarney no Colégio Eleitoral, depois das Diretas Já; e aos da eleição de Paulo Maluf prefeito de São Paulo, logo depois do movimento pela ética na política conhecido como Fora Collor. 

A saber: toda vez que há uma grande mobilização de massas com um sentido progressista, há uma reação. E se a mobilização de massas não tem organização, homogeneidade e desdobramentos, a reação terá maior êxito em "domesticar" seu significado.

Boulos acrescenta algo muito importante: "Alguns petistas ainda não compreenderam. Pensaram estar lidando com uma segunda versão do movimento "Cansei". E por isso são incapazes de entender o que ocorreu no último domingo. Aécio ganhou no Campo Limpo, Itaquera, Jardim São Luis, Ermelino Matarazzo e Sapopemba. Elite?"

Novamente, este é o fato: o anti-petismo penetrou setores populares. Não é apenas um fenômeno da "classe média tradicional" e do grande empresariado. Mas que setores populares são anti-petistas? E por quais motivos? 

Arrisco a seguinte explicação, evidentemente incompleta e parcial: há um fenômeno "geracional", há um fenômeno "social" e um fenômeno "político-ideológico".

"Geracional": a nova classe trabalhadora (por idade ou por tempo de carteira) não pensa da mesma forma que a "velha" classe trabalhadora e não tem os mesmos vínculos e opiniões com o PT. 

"Social": o fenômeno de ascensão social via consumo tende a gerar um comportamento social que mimetiza a "velha classe média" no que ela tem de pior. Risco que não é levado em devida conta por quem acha que nosso objetivo é criar um "país de classe média".

"Político-ideológico": nos últimos 12 anos, a direita reforçou seus aparatos de comunicação, cultura e educação. E a esquerda, na melhor das hipóteses, fez muito menos do que deveria e poderia.

Os três fenômenos citados estão presentes, de forma combinada, em todo o país. E estão na base da popularização do anti-petismo. Contudo, por quais motivos as eleições conduziram a resultados regionalmente tão contrastados? 

Entre outros motivos, na minha opinião, porque...

....1) os aspectos positivos do que fizemos nestes 12 anos impactaram de maneira regionalmente desigual;

... 2) a correlação de forças e a influência da hegemonia da classe dominante também são diferentes de região para região. Em São Paulo, por exemplo, há um peso maior do grande empresariado e dos setores médios tradicionais; 

... 3) finalmente, porque se é verdade que em nosso discurso faltou politização/polarização de classe, também é verdade que em nosso discurso esteve presente uma politização/polarização digamos "regional". 

Este terceiro aspecto vale para nós, mas também para a direita. Aliás, este é um tema que não aparece na análise de Boulos: o anti-petismo de base popular (assim como, no passado, o anti-varguismo etc.) é mais forte em determinadas regiões do país, como São Paulo.

Sigamos adiante com Boulos: "o que o PT teimou em não compreender é que o modelo de governo que adotou nos últimos doze anos chegou ao esgotamento. Junho de 2013 foi um sintoma disso. O pacto social construído por Lula em 2002 não funciona mais. A ideia de que todos os interesses são conciliáveis, de que todos podem ganhar, depende do crescimento econômico e da desmobilização das forças sociais".

Para ser preciso, desde 2005 setores importantes do PT vem apontando para o esgotamento da estratégia (não apenas do "modelo de governo") baseado em mudanças sem rupturas, baseado na ampliação das políticas públicas mas não em reformas estruturais etc. 

Hoje, arrisco dizer que parte importante do PT já se convenceu de que é preciso outra estratégia, embora haja opiniões diametralmente opostas sobre o que seria esta outra estratégia. 

Mas... os setores que são majoritários na direção nacional do PT não se convenceram da necessidade de mudar a estratégia a tempo de incidir nas eleições de 2014. Pesou nesta postura, na minha opinião, uma visão equivocada acerca do cenário em que esta eleição se daria. Mas, desde que perceberam qual o cenário real, vem havendo uma tentativa de ajustar, senão a estratégia, pelo menos a tática. 

Esta tentativa, como Boulos aponta, dá espaço preferencial para "uma retórica semelhante à de 2006 contra Alckmin, dos de baixo contra os de cima", sendo que "a eficácia [desta retórica] pode não ser a mesma". 

Qual a alternativa? "Apontar o rumo de transformações populares para o próximo mandato", opção que nas palavras de Boulos pode causar problemas com aliados de centro e direita.

O desafio, resumidamente, está em saber trocar a roda do carro, com o carro andando.


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SEGUE O TEXTO DE BOULOS


Onda conservadora
09/10/2014 
O último domingo revelou eleitoralmente um fenômeno que já se observava ao menos desde 2013 na política brasileira: a ascensão de uma onda conservadora. Conservadora não no sentido de manter o que está aí, mas no pior viés do conservadorismo político, econômico e moral. Uma virada à direita. 
Talvez, o recente período democrático brasileiro não tenha presenciado ainda um Congresso tão atrasado como o que foi agora eleito. O que já era ruim ficará ainda pior. O pântano de partidos intermediários, cujo único programa é o fisiologismo, cresceu consideravelmente. A bancada da bala e os evangélicos fundamentalistas tiveram votações expressivas em vários Estados do país.
O deputado mais votado no Rio Grande do Sul foi Luis Carlos Heinze, que recentemente defendeu a formação de milícias rurais para exterminar indígenas. No Pará, foi o delegado Eder Mauro. Em Goiás, o delegado Waldir, com um pitoresco mote de campanha que associava seu número (4500) com "45 do calibre e 00 da algema". No Ceará foi Moroni Torgan, ex-delegado e direitista contumaz. No Rio de Janeiro, ninguém menos que Jair Bolsonaro, que há muito deveria estar preso e cassado por apologia ao crime de tortura.
Isso sem falar da cereja do bolo, São Paulo, que desde 1932 orgulha-se em ser a vanguarda do atraso. Alckmin foi reeleito com quase 60% de votos. Serra suplantou facilmente Suplicy e, tal como em 2010, não teve pudores em recorrer ao conservadorismo mais apelativo. Desta vez, com a redução da maioridade penal como bandeira. O deputado federal mais votado foi Celso Russomano e o terceiro, o pastor homofóbico Marco Feliciano. Dois coronéis, Telhada e Camilo, conseguiram vagas na Assembleia Legislativa.
Como não falar numa onda? Onda que teve como crista a surpreendente votação de Aécio Neves para a presidência, que ficou apenas 8% atrás de Dilma quando todos os institutos de pesquisa apontavam o dobro de diferença. De São Paulo levou –direto para o aeroporto de Cláudio– 4 milhões de votos de vantagem em relação a Dilma.
São Paulo, que foi o berço das mobilizações de junho de 2013. Contradição? Nem tanto.
Por um lado, as jornadas de junho expressaram uma descrença de que as transformações populares se darão por dentro destas instituições. Foram sintoma de uma aguda crise urbana, traduzida no tema da mobilidade. E deixaram um legado positivo com o crescimento das mobilizações populares, ocupações e greves no último período. Esta vertente esquerdista de junho talvez tenha se manifestado eleitoralmente –além da votação no PSOL– pelo aumento das abstenções e votos inválidos. Neste ano somaram 29,03%, mais do que os 26,93% do primeiro turno de 2010 e do que os 26,79% que definem a média das eleições brasileiras desde 1994.
Mas junho teve outra vertente, que deixou rescaldos mais marcantes. A direita saiu do armário. Passou a adotar abertamente um discurso mais ousado e raivoso. Os velhinhos do Clube Militar tiraram a poeira das fardas para defender uma reedição de 64. Homofóbicos, racistas e elitistas passaram a falar sem pudores de suas convicções. Isso tudo se sintetizou num antipetismo feroz que correu o país. As ofensas a Dilma em estádios da Copa apenas repetiram o cântico que foi ecoado nas ruas meses antes.
E não foi só a elite. Alguns petistas ainda não compreenderam. Pensaram estar lidando com uma segunda versão do movimento "Cansei". E por isso são incapazes de entender o que ocorreu no último domingo. Aécio ganhou no Campo Limpo, Itaquera, Jardim São Luis, Ermelino Matarazzo e Sapopemba. Elite?
O que o PT teimou em não compreender é que o modelo de governo que adotou nos últimos doze anos chegou ao esgotamento. Junho de 2013 foi um sintoma disso. O pacto social construído por Lula em 2002 não funciona mais. A ideia de que todos os interesses são conciliáveis, de que todos podem ganhar, depende do crescimento econômico e da desmobilização das forças sociais.
O que temos hoje é o contrário. Uma sociedade muito mais polarizada e uma economia beirando a recessão. A mágica de agradar a todos acabou e o povo sente necessidade de mudanças. Quem teve força política para capitanear o discurso da mudança não foi a esquerda, mas a direita. O sentimento é difuso e despolitizado, por isso pôde ser encarnado farsescamente pelo PSDB após o declínio de Marina Silva.
Este segundo turno será um divisor de águas. A burguesia brasileira provavelmente se alinhará em bloco com Aécio Neves, seu candidato puro sangue. Se o PT quiser disputar o discurso direitista com Aécio corre grave risco de ser derrotado e ainda sair desmoralizado para uma eventual oposição a partir de 2015.
Outra alternativa que tem é apontar o rumo de transformações populares para o próximo mandato, o que não fez nos últimos doze anos. Fazer o combate pela esquerda. Se o fizer, terá um preço a pagar em relação à base aliada e aos financiadores. Dificilmente o fará.
O mais provável é que recorra a uma retórica semelhante à de 2006 contra Alckmin, dos de baixo contra os de cima, sem maior consequência prática. Mas o momento é outro e o discurso da mudança está com muito mais capilaridade inclusive entre os de baixo. A eficácia pode não ser a mesma. A onda conservadora está vindo com força e, agora ou em 2015, obrigará o PT a reposicionar-se na conjuntura, para lá ou para cá.

Guilherme Boulos, 32, é formado em filosofia pela USP, professor de psicanálise e membro da coordenação nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto). Também atua na Frente de Resistência Urbana e é autor do livro "Por que Ocupamos: uma Introdução à Luta dos Sem-Teto".