CAMARADAS

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A cada qual, o seu

O Alexandre Rands merece o troféu sinceridade.

Segundo ele, em entrevista a Folha de S. Paulo (25/9), se Marina Silva fosse eleita, haverá um "ajuste fiscal grande".

E deu detalhes: "No primeiro ano, haverá crescimento baixo porque você precisará de ajuste fiscal grande, com acomodação de preços relativos, como câmbio, energia, gasolina". 

Acomodação é a palavra tucana para aumentos.

Rands admite que isto vai gerar "uma série de incertezas na economia. Mas certamente as previsões vão melhorar se Marina ganhar, porque você não vai ter um governo federal jogando contra como você tem hoje".

Claro, claro.

As "previsões" elaboradas pelos consultores pagos pelos bancos vão "melhorar", pois eles terão um governo 100% a favor deles.

É por estas, mas também por muitas outras, que dizemos que Marina é hoje a candidata preferida dos banqueiros.

Aliás, recomendamos ao governador Sebastião Viana (Acre) que converse com Rands, com Gianetti, com Neca Setúbal e companhia limitada.

No mesmo dia 25 de setembro, o jornal Valor perguntou e Viana respondeu o que segue:

Como o senhor vê os ataques a Marina feitos pela campanha do PT?
Acho errado. Preferia um debate de quem pode fazer melhor pelo Brasil. Temos a chance de ver um novo debate democrático no Brasil entre duas forças progressistas, o PT e a Marina. E é diferente porque desloca o eixo conservador da disputa de poder do Brasil para a periferia, que é o Aécio [Neves, candidato à Presidência pelo PSDB], que representa as forças conservadoras do mercado, querendo ter de novo espaço de poder nacional. Quando vem o ataque, é ruim. Mas não dá para dizer que o PSB é santo, não. A Marina tem atacado o PT injustamente.
Como? Quando?
Muito injustamente. Quando ela falou "como pode o governo bancar 12 anos um servidor para roubar?" Ora, aquele rapaz [Paulo Roberto Costa] era diretor da Petrobras no governo Fernando Henrique. Ele é funcionário de carreira Petrobras, serviu ao governo Fernando Henrique, como é que ela não criticou o PSDB? Marina foi do governo Lula. Então é fogo cruzado, não tem vítimas aí. Conheço a Marina, Marina é de combate.

Ao contrário do que diz Viana, Marina não é progressista. 

E é fundamental deixar isto claro para a população. Para que todos possam votar com conhecimento de causa.

Considero "compreensível" que Viana faça este tipo de confusão, que ache Marina progressista.

Afinal, Viana mesmo já defendeu e praticou alianças com o PSDB. O que significa que ele tem um critério singular para definir o que vem a ser um progressista.

Hoje Viana já entendeu o que é o PSDB. Espero que até o dia 5 de outubro ele perceba que também Marina é candidata das "forças conservadoras do mercado".

Aliás, a candidata preferida.

Rands que o diga.



quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Os coxinhas em defesa dos milionários

O Instituto Liberal do Centro-Oeste divulgou um vídeo criticando o que foi dito por Luciana Genro, em entrevista concedida ao programa de Danilo Gentili.

O vídeo é um ótimo resumo dos preconceitos ideológicos, programáticos e políticos que a direita tem contra a esquerda, que os capitalistas tem contra os socialistas, que os coxinhas tem contra os militantes.

A entrevista de Luciana a Gentili está aqui:



http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/09/apos-ser-comparada-com-hitler-luciana-genro-pensa-em-processar-danilo-gentili/

O vídeo dos coxinhas está aqui:

http://www.brasilpost.com.br/2014/09/22/luciana-genro-entrevista_n_5865358.html?utm_hp_ref=mostpopular

Que Luciana Genro tenha irritado os coxinhas é um ponto a seu (dela) favor.

Mas quem assistir ao vídeo dos coxinhas, perceberá que é preciso usar argumentos em defesa do socialismo diferentes daqueles utilizados por Luciana.

Na luta pelo socialismo, podemos e devemos recusar modelos. 

Assim como podemos e devemos criticar duramente as experiências de transição socialista ocorridas no século XX e XXI.

Mas é um erro adotar o argumento segundo o qual "na prática não vimos nenhum regime socialista".

Dito desta forma, as experiências soviética, chinesa, cubana, vietnamita etc. são convertidas em fraudes. Ou reduzidas a aspectos positivos, como Luciana faz na entrevista a Fernando Rodrigues.

Um trecho da entrevista de Genro a Rodrigues está aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=Q8NLT3Ky6uw

Na origem deste "argumento", há um pressuposto utópico, idealista, segundo o qual o socialismo de verdade surgiria desde o início perfeito, mais ou menos como Palas Athena saiu da cabeça de Zeus.

Socialismo é transição. Não há como surgir perfeito. Especialmente nas condições históricas do século XX.

Na entrevista dada a Gentili, Luciana apelou para uma imagem: disse que Marx deve se revirar no túmulo (segundo entendi, ao ver seu nome associado ao tipo de sociedade existente em países como URSS, China, Cuba, Vietnã...).

A imagem é meio batida, mas sempre divertida. Entretanto, supondo que mortos revirem na tumba, o que faria Trotsky se tivesse o azar de assistir aquela parte da entrevista?

Ou se ouvisse a defesa que ela faz do socialismo libertário?

Acho que ele diria que adotar um ponto de vista liberal sobre o socialismo, não ajuda a derrotar o ponto de vista dos coxinhas.










Miriam Leitão e Ana Paulo Araújo são de Marte ou de Vênus?

No espaço nobre do editorial, o vetusto O Estado de S. Paulo sapecou "O autorretrato de Dilma".

Lá está dito: "Habituada, da cadeira presidencial, a falar o que quiser, quando quiser e para quem quiser - e a cortar rudemente a palavra do infeliz do assessor que tenha cometido a temeridade de contrariá-la -, a autoritária candidata à reeleição foi incapaz de aguentar a barra de uma entrevista de meia hora a três jornalistas da Rede Globo, no "Bom dia, Brasil". A sabatina foi gravada domingo no Palácio da Alvorada e levada ao ar, na íntegra, na edição da manhã seguinte do noticioso. Os entrevistadores capricharam na contundência das perguntas e na frequência com que aparteavam as respostas. Se foram, ou não, além do chamamento jornalístico do dever, cabe aos telespectadores julgar."

Vamos atender ao pedido do Estadão.

Eu, como telespectador, discordo do comportamento dos entrevistadores.

Não porque tenham questionado os números apresentados pela presidenta.

Não porque tenham exigido respostas às suas perguntas.

Isto daí, diria, faz parte.

Acho, entretanto, que as seguidas interrupções prejudicaram o entendimento das opiniões da entrevistada.

Ou seja, uma atitude profissionalmente questionável.

Tão ou mais grave que a forma, foi o conteúdo de alguns questionamentos.

Eles têm todo o direito de pensar e dizer o que pensam e dizem. Mas a recíproca é verdadeira. Assim, como o Estadão achou que era o caso de perguntar, respondo: minha opinião é que em alguns casos a ignorância só é menor do que a cara-de-pau

Recomendo assistir na íntegra a entrevista.

http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2014/09/bom-dia-brasil-entrevista-dilma-rousseff.html

Me chamaram a atenção, especialmente, os seguintes trechos:

Ana Paula Araújo: Eu queria falar da sua campanha eleitoral na TV, em que a senhora diz que, se a sua adversária Marina for eleita, os pobres vão passar fome, os banqueiros vão fazer as maiores maldades com o povo, acaba o pré-sal, as pessoas não vão mais comprar casa própria. Enfim, claro que a sua adversária nega fundamento em todas essas acusações. A minha pergunta é: a senhora acha legítimo levar o debate político para esse lado, ao invés de discutir propostas, soluções para o país, ficar botando medo nas pessoas?

"Esse lado"?

No mundo em que a senhora Ana Paula vive, os banqueiros não estão no centro de uma crise econômica que provocou dezenas de milhões de desempregados??

Não se deve falar disto na campanha???

E depois temos a Miriam Leitão.

Miriam Leitão: Candidata, é o seguinte... Outros países, como por exemplo o Reino Unido, o Partido Trabalhista decidiu pela autonomia do Banco Central. Isso reduziu os juros de longo prazo, estabeleceu uma política monetária tranquila. Ninguém acusou o Partido Trabalhista, ou em outros países, no Chile, por exemplo, de isso empobrecer os pobres e defender os bancos. Quer dizer, por que não é melhor levar argumentos mais racionais em vez de usar um argumento desses, que é um argumento... Não faz sentido esse argumento.

Novamente perguntamos: em que mundo, em que planeta, vivem as senhoras Miriam Leitão e Ana Paula Araújo?

Neste mundo, é racional, faz sentido dizer que defender os bancos favorece os pobres???

O pior é que a condição de porta-vozes do oligopólio faz certos jornalistas acreditaram sinceramente em certas mentiras. 

Aliás, este pode ser um motivo a mais para democratizar a comunicação: libertar certos jornalistas desta situação angustiante, de ter que mentir sinceramente todo santo dia.

Mais democracia, mais empregos, mais liberdade.

A polêmica sobre a redução da desigualdade

Não tememos o debate sobre a desigualdade.

Nem historicamente: cada avanço da igualdade é produto da luta da classe trabalhadora.

Nem nos últimos 12 anos: os setores populares vivem melhor (social e politicamente) nos governos Lula e Dilma, do que viveram nos governos tucanos.

Nem nos últimos quatro anos, em que nadamos contra a corrente da crise internacional.

Nem tememos os resultados do PNAD (ver matéria abaixo, publicada no Valor).

O fato é muito simples: todos sabíamos que, nos marcos do modelo, há um limite para a redução da desigualdade.

Este limite não é físico.

O limite é político, social e econômico.

Aumentar os empregos, aumentar os salários, aumentar o consumo, aumentar as políticas sociais... num primeiro momento reduz a desigualdade (mesmo que basicamente entre os que vivem de salário).

Mas, num segundo momento, a reação conservadora dos que detêm a riqueza, a propriedade e o poder tira com uma mão (juros, inflação, redução no crescimento) o que eles foram forçados a dar com a outra.

Por isto é que dissemos, sempre: continuar reduzindo a desigualdade exige "mudar de modelo". 

Ou seja, fazer reformas estruturais que democratizem a riqueza, a renda e o poder.


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Reduzir mais a desigualdade é uma tarefa desafiadoraValor Econômico 
Tem razão a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, quando diz que a avaliação das políticas públicas deve se focar em tendências e não se apegar a microvariações de 0,001 ponto para cima ou para baixo, ao comentar o episódio do erro do IBGE na elaboração da Pnad de 2013.
(...) No entanto, olhando-se os números por um período mais longo, a conclusão continua a mesma: o progresso na redução da desigualdade estagnou no governo de Dilma Rousseff, com o índice de Gini do rendimento médio mensal de todas as fontes passando de 0,506 em 2011, o primeiro ano, a 0,501 em 2013. Nos três anos anteriores, o índice de Gini de todas fontes de renda diminuiu 0,020 ponto, saindo de 0,526 em 2008. Ao longo dos oito anos de Lula, o avanço foi de 0,055 ponto.
Já o índice de Gini do rendimento médio mensal de todos os trabalhadores avançou 0,053 ponto ao longo do governo Lula, a uma velocidade média anual superior à verificada no governo de Dilma, quando recuou de 0,500 no primeiro ano, 2011, a 0,495 no ano passado.
Os números indicam que a estratégia do governo de combater a desigualdade por meio dos programas de transferência de renda, aumento do salário mínimo e mercado de trabalho está perdendo gás, apesar de o Brasil ainda estar bem distante dos índices de 0,482 do México e de 0,412 da Turquia, de acordo com a OCDE.
O bem-sucedido Bolsa Família, por exemplo, que beneficiava 3,6 milhões de famílias em 2003, cresceu nos anos seguintes até chegar a 12,8 milhões de famílias no fim do 2º mandato de Lula. No ano passado, atingiu 14,1 milhões de famílias, cerca de 50 milhões de pessoas, ao custo de R$ 26,1 bilhões.
Mas o Bolsa Família já não cresce à mesma velocidade pela redução do número de famílias elegíveis para o benefício, que são aquelas com renda per capita mensal inferior a R$ 77. Seu impacto poderia ser ampliado com o aumento do benefício, o que está fora de questão pelas restrições fiscais do governo. E há uma pressão crescente pela criação de mecanismos de saída dos beneficiários do programa.
O mercado de trabalho é um importante motor da redução da desigualdade. Mas, nesse front, a Pnad 2013 trouxe uma novidade desanimadora: o aumento da taxa de desocupação para 6,5% em comparação com 6,1% em 2012. Foi a primeira elevação desde a crise internacional de 2008.
Apesar disso, a renda da população manteve o crescimento real. Em 2013, o rendimento médio do trabalho cresceu 3,8%; e o de todas as fontes, 3,4%. Mas foi um avanço inferior ao de 2012, que havia sido de 5,6% e 5,5%, respectivamente. Nesse campo, também joga contra a inflação, que corrói o valor de salários e benefícios.
O governo mantém o otimismo com a preservação de índices baixos de desemprego em contraste com o cenário internacional e faz disso um ponto de destaque na campanha eleitoral. As perspectivas para o mercado de trabalho, porém, são pessimistas dado o enfraquecimento da economia. O próprio governo reduziu nesta semana a expectativa de crescimento do PIB para 0,9%, taxa três vezes maior do que a estimada pelo mercado.
Na batalha pela redução da desigualdade resta a educação, campo em que o governo vem tentando avançar com o ensino técnico e a ampliação dos investimentos vinculados à receita do pré-sal. Mas os resultados do Ideb, mostrando um desempenho aquém do desejável nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio e a própria Pnad indicam que há muito por fazer. Segundo a Pnad, há cerca de 13 milhões de analfabetos no país, 8,5% da população com 15 anos ou mais.
A Pnad revelou também um quadro positivo de maior acesso da população a bens de consumo como geladeiras, automóveis e computadores, em contraste com o pouco acesso a abastecimento de água e coleta de esgoto. Reduzir o descompasso pode fazer o país avançar mais na redução da desigualdade.

Saindo do armário

A ilusão é má conselheira.

Também por isto, é pedagógico, é didático, é útil, ver lideranças do empresariado fazendo críticas a Dilma e elogios a Marina.

Especialmente quando sabemos que estas lideranças eram, não faz muito tempo, elogiadas como exemplos de que tínhamos apoios "no outro campo".

Dois exemplos: Antonio Delfim Netto e Benjamin Steinbruch.

Ambos podem ser lidos na Folha de S. Paulo de 24 de setembro.

Segundo Steinbruch, atual presidente da Fiesp e também à frente da (privatizada) CSN, Marina Silva é "uma boa opção para o Brasil andar para a frente."

Já Dilma seria "fechada em si mesma", "se distancia da realidade", "dura com as pessoas, inibe aqueles que a cercam de falar a verdade ou de levar os problemas".

É sempre tocante ler um empresário atento para este tipo de questão.

Mas, segundo a própria Folha, haveria outra lista de "motivos" para a declaração de voto de Steinbruch, lista que inclui atritos por causa da Transnordestina e a atuação da Receita Federal. 

Diz a Folha: "o empresário discute com o fisco uma autuação de R$ 4 bilhões aplicada à CSN, por supostamente ter deixado de pagar impostos sobre os ganhos na venda de parte de uma mineradora em 2008. A siderúrgica recorreu".

De fato, alguém que deixa a Receita cobrar 4 bilhões de reais é mesmo "dura".

E Delfim?

Este é um caso de laboratório.

Ministro da ditadura, depois parlamentar, conselheiro de gregos e troianos, capaz de tiradas e raciocínios inteligentes.

Por exemplo: ele tem razão ao criticar, na Folha de 24 de setembro, a submissão das campanhas eleitorais ao domínio irresponsável dos "marqueteiros".

Ele também tem razão ao acusar de falacioso o argumento segundo o qual a crença que o Estado cria recursos físicos do nada e que, portanto, não tem limite --a não ser a "vontade política"-- para atender às suas demandas.

Mas é uma vergonha --vindo de alguém inteligente, como sem dúvida ele é-- ler o seguinte: afirmar que um Banco Central independente "rouba a comida da boca do pobre" é uma ignomínia.

Vou repetir o trecho inteiro, para que fique claro o raciocínio:

As falsidades que o elegeram são as mesmas que lhes serão cobradas no exercício do governo. Afirmar que um Banco Central independente "rouba a comida da boca do pobre" é uma ignomínia.
Independente de quem, se sua diretoria é escolhida pelo presidente que lhe fixa os objetivos e aprovada pelo Senado, ao qual presta contas regularmente?
Prometer que vai "eliminar o fator previdenciário" diante das contas de previdência e do rápido envelhecimento da população brasileira é tão irresponsável quanto a promessa anterior.
Prometer que vai "modificar os índices de produtividade do campo" é irrelevante para aumentar a "produtividade" e será uma bobagem verificável só quando o MST promover a revolução...
A urna aprova qualquer barbaridade, mas a sociedade aprende para a próxima eleição. Infelizmente, a verdade é sempre descoberta tarde demais...
É por isso que nas democracias (sem adjetivo!) o remédio é mais democracia, cuja marcha pode, eventualmente, ser interrompida pelo "democratismo delirante".

Vamos por partes:

Quem deve ser cobrado a explicar a independência do Banco Central é quem a está propondo. Nós, do PT, sempre fomos contra.

E basta ler os intermináveis artigos em defesa da independência, para perceber qual o objetivo: aumentar a autonomia do setor financeiro, frente à soberania popular.

Prometer eliminar o fator previdenciário só seria irresponsável, caso a proposta não viesse acompanhada de medidas para ampliar os recursos disponíveis, por exemplo via reforma tributária ou via redução dos encargos da dívida pública.

Utilizar como argumento as contas da previdência e o rápido envelhecimento da população é desconhecer os avanços da produtividade e a existência de riquezas acumuladas, hoje disponíveis apenas para uma parte minúscula da população brasileira.

Se modificar os índices de produtividade do campo fosse mesmo irrelevante, por qual motivo o agronegócio faz tamanha agitação contrária à proposta?

Nem o MST, nem toda a esquerda brasileira, é capaz de "promover a revolução". Neste quesito, não há como competir com os black blocs do grande capital.

Por fim: vindo de um coxinha, a última frase do texto não me preocuparia. 

Mas vindo de alguém com o passado de Delfim, preocupa-me ler o seguinte: a marcha da democracia pode, eventualmente, ser interrompida pelo "democratismo delirante".

"Eventualmente", isto pode ser entendido como uma ameaça típica de golpistas.

Golpistas cujos armários ainda estão cheios de cadáveres.








Vitória no primeiro turno

As pesquisas divulgadas nos últimos dias, mostrando Dilma em alta e Marina em baixa, ressuscitaram a hipótese de uma vitória no primeiro turno.

Trata-se de uma hipótese que não deve ser descartada, nunca.

Trata-se, também, de uma hipótese muito mais "agradável", digamos assim, para nós que defendemos a reeleição da Dilma Rousseff.

Afinal, num segundo turno as duas candidaturas teriam tempos iguais no horário eleitoral gratuito, o PIG todo trabalharia contra nós e o anti-petismo seria (ainda mais) utilizado como "programa mínimo" para unificar toda a oposição contra nós.

Liquidar a fatura no primeiro turno, portanto, é evidentemente o melhor cenário.

Porém, vejamos o outro lado do problema.

O PIG sabe disto tudo. Sabe, também, que a única candidatura que poderia vencer no primeiro turno é a de Dilma. Logo, sabem que só podem nos derrotar num segundo turno. Logo, quando eles admitem a possibilidade de uma vitória de Dilma no primeiro turno, o fazem para alertar sua própria tropa. E isto tem efeitos práticos.

Dito de outra forma: nas atuais condições, uma vitória no primeiro turno dependeria muito do "fator surpresa". Que já está eliminado, de saída.

Além do mais, é preciso não confundir matemática com política. Vejamos, por exemplo, os dados da pesquisa CNT/DMA de 23 de setembro.

Dilma tem 36. Marina tem 27,4. Aécio tem 17,6. Os demais tem 1,2%. E a abstenção fica em 18%.

As contas a seguir supõem que a abstenção de 2014 não se altere em relação às pesquisas, o que é possível, pois 18% é o mesmo patamar de abstenção de 2010.

Considerando apenas os votos válidos, Dilma tem 44%, Marina tem 33,4%, Aécio tem 21,4% e os demais obtém 1,2%.

Logo, 44% versus 56%.

Matematicamente parece fácil.

Mas politicamente, estamos diante do seguinte desafio: teria que haver um imenso esforço do nosso lado, que gerasse como reação um recuo de todo o lado de lá.

Vale lembrar os seguintes dados de 2010: Dilma, 46,91%; Serra, 32,61%; Marina, 19,33%; Outros, 1,2%.

Ou seja: não basta que Dilma cresça, é preciso que os outros caiam.

Dito de outra maneira: teríamos que conseguir que todos os votos que Marina está perdendo, se transferissem para Dilma, não para Aécio ou qualquer outra candidatura; e que nenhuma destas outras candidaturas conseguisse captar votos de Dilma (nem dos que estão se abstendo neste momento).

Não é impossível. Mas é muito difícil que isto ocorra.

Vale a pena tentar? Claro, até porque, como dizia o poeta, tudo vale a pena, quando a alma não é pequena.

Como? Insistindo na mesma postura que adotamos nas últimas semanas, a saber: politizar, polarizar, mobilizar.

Vale dizer que esta postura é válida para os dois turnos.

Pois no segundo turno estará posto o mesmo problema: converter a nosso favor os votos válidos dados no primeiro turno às demais candidaturas; estimular a neutralidade (brancos, nulos, não comparecimento) de quem não queira votar a nosso favor; converter em votos válidos a nosso favor o maior número possível dos que se abstiveram no primeiro turno.

Uma tradução política destas diretrizes eleitorais: atrair, com o nosso programa, o voto dos setores sociais democrático-populares; atrair mas principalmente neutralizar, falando do programa e das debilidades da adversária, o voto dos setores sociais que não integram o campo democrático-popular.

O que devemos evitar? O gravíssimo erro cometido em 2006 e em 2010, por setores do partido, da campanha e do governo, que tinham 100% de certeza de que venceríamos no primeiro turno. Setores que, quando veio o segundo turno, passaram vários dias em estado de choque, sem saber o que fazer.

Por isto, devemos estar preparados --politicamente, organizativamente, animicamente-- para uma duríssima disputa até 27 de outubro. E que, é bom lembrar, não vai se encerrar aí, porque o antipetismo da direita é uma aposta de "longa duração".

Carta do professor Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira


Carta aberta

Estimado colega, Prof. Dr. Roberto Amaral
Presidente do PSB,

A Sra. Marina Silva tinha um percentual de intenções de voto bem maior do que o do governador Eduardo Campos, mas não conseguiu registrar seu partido  - Rede Sustentabilidade - e sair com sua própria candidatura à presidência da República.

O governador Eduardo Campos permitiu que ela entrasse no PSB e se tornasse candidata a vice na sua chapa. Imaginou que seu percentual de intenções de voto lhe seria transferido.

Nada lhe transferiu e ele não saiu de um percentual entre 8% e 10%. Trágico equívoco.

Para mim era evidente que Sra. Marina Silva não entrou no PSB, com maior percentual de intenções de voto que o candidato à presidência, para ser apenas vice.

A cabeça de chapa teria de ser ela própria. Era certamente seu objetivo e dos interesses que representa, como o demonstram as declarações que fez, contrárias às diretrizes ideológicas do PSB e às linhas da soberana política exterior do Brasil.  

Agourei que algum revés poderia ocorrer e levá-la à cabeça da chapa, como candidata do PSB à Presidência.

Antes de que ela fosse admitida no PSB e se tornasse a candidata a vice, comentei essa premonição com grande advogado Durval de Noronha Goyos, meu querido amigo, e ele transmitiu ao governador Eduardo Campos minha advertência.

Seria um perigo se a Sra. Marina Silva, com percentual de intenções de voto bem maior do que o dele, fosse candidata a vice. Ela jamais se conformaria, nem os interesses que a produziram e lhe promoveram o nome, através da mídia, com uma posição subalterna, secundária, na chapa de um candidato com menor peso nas pesquisas.

O governador Eduardo Campos não acreditou. Mas infelizmente minha premonição se realizou, sob a forma de um desastre de avião. Pode, por favor, confirmar o que escrevo com o Dr. Durval de Noronha Goyos, que era amigo do governador Eduardo Campos.

Uma vez que há muitos anos estou a pesquisar sobre as shadow wars e seus métodos e técnicas de regime change, de nada duvido. E o fato foi que conveio um acidente e apagou a vida do governador Eduardo Campos. E assim se abriu o caminho para a Sra. Marina Silva tornar-se a candidata à presidência do Brasil.  

Afigura-me bastante estranho que ela se recuse a revelar, como noticiou a Folha de São Paulo, o nome das entidades que pagaram conferências, num total (que foi, declarado) de R$1,6 milhão (um milhão e seiscentos mil reais), desde 2011, durante três anos em que não trabalhou. Alegou a exigência de confidencialidade. Por que a confidencialidade? É compreensível porque talvez sejam fontes escusas. O segredo pode significar confirmação.

Fui membro do PSB, antes de 1964, ao tempo do notável jurista João Mangabeira. Porém, agora, é triste assistir que a Sra. Marina Silva joga e afunda na lixeira a tradicional sigla, cuja história escrevi tanto em um prólogo à 8a. edição do meu livro O Governo João Goulart, publicado pela Editora UNESP, quanto em O Ano Vermelho, a ser reeditado (4a edição), pela Civilização Brasileira, no próximo ano.

As declarações da Sra. Marina Silva contra o Mercosul, a favor do subordinação e alinhamento com os Estados Unidos, contra o direito de Cuba à autodeterminação, e outras, feitas em vários lugares e na entrevista ao Latin Post, de 18 de setembro, enxovalham ainda mais a sigla do PSB, um respeitado partido que foi, mas do qual, desastrosamente, agora ela é candidata à presidência do Brasil.

Lamento muitíssimo expressar-lhe, aberta e francamente, o que sinto e penso a respeito da posição do PSB, ao aceitar e manter a Sra. Marina Silva como candidata à Presidência do Brasil.

Aos 78 anos, não estou filiado ao PSB nem a qualquer outro partido. Sou apenas cientista político e historiador, um livre pensador, independente. Mas por ser o senhor um homem digno e honrado, e em função do respeito que lhe tenho, permita-me recomendar-lhe que renuncie à presidência do PSB, antes da reunião da Executiva, convocada para sexta-feira, 27 de setembro. Se não o fizer - mais uma vez, por favor, me perdoe dizer-lhe - estará imolando seu próprio nome juntamente com a sigla.

As declarações da Sra. Marina Silva são radicalmente incompatíveis com as linhas tradicionais do PSB. Revelam, desde já, que ela pretende voltar aos tempos da ditadura do general Humberto Castelo Branco e proclamar a dependência do Brasil, como o general Juracy Magalhães, embaixador em Washington, que declarou: "O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil."
  
Cordialmente,

Prof. Dr. Dres. h.c. Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira