CAMARADAS

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Safatle em fase Bee Gees

Pena Pena
Curioso este texto do Safatle: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2014/09/1516545-esquerda-sazonal.shtml

Efetivamente, na democracia eleitoral burguesa muitas eleições são temporada de cerejas vermelhas.

Isso acontece especialmente naqueles países onde há mais títulos eleitorais do que carteiras de trabalho.

Efetivamente, há setores que radicalizam o discurso apenas quando estão sob pressão, sob ameaça.

Nos demais 44 meses do ano, a direita tem licença para matar, para mentir, para caluniar. 

Efetivamente, uma das dificuldades de Marina está em tentar embalar "os sonhos das manifestações de junho vestindo o figurino de uma Margaret Thatcher da Floresta".

Pode ser que ela leia esta crítica e siga o conselho.

Mas o que efetivamente chama minha atenção neste texto do Safatle não é o humor, nem a lembrança dos Bee Gees (https://www.youtube.com/watch?v=ihhHQEpPrAI).

O que chama minha atenção é o perfume. 

Um perfume parecido ao que sinto nos textos da Dora Kramer e da Miriam Leitão, quando leio neles a acusação de que o PT está mentindo e enganando parcelas desinformadas do povo.

Afinal, como não perceber que a estação das cerejas vermelhas vai só até 27 de outubro?

Afinal, como não perceber que, a partir daí, as árvores governistas voltarão a dar os cinzentos "frutos amargos da austeridade"?

Ou será que isto é licença poética de Safatle?

Ou será que as tais "árvores governistas" são muitas, os frutos são muitos e nem tudo é cinza nos quatro anos que separam uma eleição da outra?

Neste caso, a situação política e eleitoral não tem nada de "cômica". 

Há um combate sendo travado, que vai afetar os níveis de bem estar, democracia e soberania existentes no Brasil, com impactos regionais e mundiais.

Neste combate, numa final contra a turma da Margareth Thatcher da Floresta, espero que Safatle apoie a turma das cerejas vermelhas.




































Grife Higienópolis, molde Carandiru

Muito reveladora a entrevista concedida por José Arthur Giannotti, ao jornal O Estado de S. Paulo, no dia 14 de setembro.

A entrevista está aqui: http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,psdb-nao-soube-atuar-na-oposicao-afirma-giannotti-imp-,1559858

A entrevista deixa evidente qual o pano de fundo das reflexões de um dos principais intelectuais "tucanóides" (o termo é dele).

Giannotti diz com todas as letras: "Aécio não vai ganhar a eleição". 

Prevê que Aécio e o PSDB vão apoiar Marina. 

Afinal, "para fazer o antipetismo" é preciso "apoiar a Marina".

Segundo Giannotti, o "antipetismo está bem instalado na política brasileira hoje. É uma tremenda força". 

Antes que perguntassem, Giannotti cuida de acrescentar: "e não venham dizer que é esquerda contra direita".

Aliás, Giannotti não considera correto comparar Marina com Collor e Jânio. 

Mas reconhece que "dá para lembrar deles na medida em que vem alguém religiosamente para salvar a pátria e depois tem uma enorme complicação na montagem do governo. (...) Quando o avião cai, ela se acha predestinada a salvar a pátria e começa com esse discurso. A partir do desastre, ela lembra Jânio e Collor ao dizer que veio para salvar a pátria". 

Para Giannotti, o fato de Marina ser evangélica "colabora para que ela venha na onda da salvação da pátria e do Estado".

Por quê? 

"Quando há uma crise de Estado, os conflitos religiosos aparecem. Quando não há uma estrutura do poder central organizando a sociedade, Deus aparece como o centralizador. Isso está evidente no Oriente Médio. O avanço evangélico é um sintoma da crise de Estado". 

O caso é este: Giannotti acredita que estamos diante de "um problema muito sério", uma "crise de Estado". 

E explica: "Uma crise de Estado acontece quando você decide em cima e a decisão não chega embaixo. E o Estado, dessa forma, não funciona. Já temos uma crise de decisão. Ela continua se Dilma ou Marina vencerem".

Na minha opinião, o pensamento de Giannotti é equivalente aos discursos de ultradireita que falam que o país está numa situação de caos, que só pode ser superada com um golpe.

Claro que a grife é Higienópolis.

Mas o molde é Carandiru.

A UDN apoiou Jânio para derrotar o populismo trabalhista. A direita anos 80 apoiou Collor para derrotar Lula. Agora, Giannotti defende que o PSDB apoie Marina para tentar derrotar Dilma. Sempre a pretexto da "salvação da Pátria e do Estado".

Detalhe: Giannotti afirma que a crise do Estado "continua" se Marina vencer. O que nos leva a especular que outras medidas extraordinárias ele consideraria necessárias, além da "Santa Aliança" para tentar derrotar o PT nas eleições presidenciais de 2014.

Falar de crise do Estado seria um exagero de um intelectual tucanóide? 

Sim e não. 

O país não está um caos. Mas o oligopólio da mídia difunde esta interpretação todo santo dia. E há setores importantes, no grande capital e nos setores médios, que acreditam nisto e agem em conformidade.

Além disso, existem problemas reais, entre os quais um que Giannotti resume assim: "você decide em cima e a decisão não chega embaixo. E o Estado, dessa forma, não funciona".

Quem decide o quê? Qual decisão não chega? Não funciona para quem? Isto Giannotti não detalha, mas acredito que vale lembrar  o que foi dito da Constituição de 1988. 

O PT não votou a favor daquela Constituição, para deixar claro que considerava insuficiente o conjunto da obra. Já o então presidente Sarney dizia que a Constituição de 1988 ia deixar o país ingovernável. 

Vieram os governos Collor e FHC, que trabalharam para desmantelar os aspectos progressistas da Constituição, enquanto o PT assumia sua defesa contra as reformas regressivas dos tucanos. 

Em 2002, o PT vence as eleições e boa parte dos esforços de Lula e Dilma podem ser resumidos assim: implementar o que estava previsto na Carta.

Um exemplo, entre muitos: a integração latino-americana, que está lá na Constituição de 1988.

Acontece que, lembremos do então presidente Sarney, a Constituição de 1988 deixaria o país ingovernável. Se Sarney adotasse o vocabulário de Giannotti, ele teria dito que a aplicação da Constituição de 1988 colocaria o país diante de uma crise do Estado

E por quê? 

Entre outros motivos porque os capitalistas brasileiros realmente existentes não toleram conviver por muito tempo, especialmente em momentos de crise internacional, com doses crescentes, mesmo que reduzidas, de democratização, bem estar-social e soberania nacional.

Reitero: não se trata de uma intolerância do capitalismo, em tese. Mas sim dos capitalistas, que enxergam radicalismo bolchevique no que não passa de medidas moderadamente reformistas.

A intolerância dos capitalistas não se traduz, apenas, na histeria do oligopólio da mídia. Ela aparece, também, sob a forma de conflitos crescentes entre o executivo, o legislativo, o judiciário, a burocracia de Estado, as forças de segurança etc. 

Não é por acaso que o PT defenda com cada vez maior ênfase uma reforma política progressista, enquanto outros setores defendam reformas conservadoras temperadas pela judicialização crescente da política.

Tampouco é por acaso que temas como a desmilitarização das polícias militares, a criminalização dos movimentos sociais e a ampliação da participação popular ganhem espaço na pauta política.

Isto posto, voltemos a Giannotti.

Ele considera que 
o PSDB "não conseguiu se articular como oposição", porque "não teve discurso. Na medida em que o PT foi para o centro, ele roubou o discurso do PSDB". 

Esta ideia de que o problema do PSDB é o discurso (ou a falta de) é compartilhada por alguns setores do PT, que acreditam nisto ou simplesmente querem desqualificar a oposição de direita.

Mas a verdade é outra: o PSDB tem discurso, tem programa, tem uma análise acerca do país. Análise que corresponde, em maior ou menos medida, às aspirações de um setor do grande capital e de seus funcionários. 

O PT não "roubou" o discurso do PSDB, que tampouco estava no "centro". O que acontece foi algo mais simples: no governo FHC, os efeitos decorrentes da aplicação de seu programa de direita fizeram o PSDB perder, paulatinamente, parte de seus apoiadores nos setores populares, nos setores médios e inclusive no grande capital. 

Mas mesmo fora da presidência da República o PSDB manteve um poderoso apoio econômico, político e eleitoral. Insuficiente, contudo, para vencer a eleição presidencial de 2006 e de 2010. 

Para vencer, o PSDB precisaria atrair 1/3 do eleitorado que flutua entre PT e PSDB. O sonho do PSDB era fazer isto em 2014, recebendo o apoio de Campos (ou de Marina) no segundo turno. 

Mas aconteceu o que sabemos: o discurso tucano ser "melhor interpretado", ou seja, ter mais chances de vitória quando vocalizado por alguém que não é tucano de origem. E agora o PSDB se vê, que tristeza, na condição de terceirizado, dependendo de interposta figura.

Que Marina. originária da esquerda, se proponha a este papel, não deveria nos surpreender. Serra também já foi um homem de esquerda. Hoje, no máximo ele está à esquerda de Alckmin. 








Marina, peça para Rands dar mais entrevistas assim

Marina tem um notável grupo de assessores, entre os quais a “educadora” Neca Setúbal e o “filósofo” Eduardo Gianetti.

Mas a celebridade do momento é Alexandre Rands, que numa entrevista ao jornal O Globo (14/9) acusou a presidenta Dilma de “tratar os empresários como prostitutas”.

A entrevista está disponível em http://oglobo.globo.com/brasil/dilma-trata-empresarios-como-prostitutas-diz-coordenador-economico-do-programa-do-psb-13925349

Rands confirma que concorda em “80% dos temas” com os tucanos.

Segundo Rands, a concordância com os tucanos existe porque há “alguns consensos na teoria econômica. Estão em todas as universidades americanas, em 98% das europeias, em 95% das asiáticas e 97% das brasileiras”.

Os percentuais podem estar exagerados, mas na essência o que Rands diz é verdade: grande parte do pensamento acadêmico foi colonizado por teses pró-mercado financeiro e pró-transnacionais.

Já sabíamos que o PSDB defende estas teses.

Rands apenas reafirma que Marina e seu partido-hospedeiro defendem o mesmo.

E Dilma? Segundo Rands, ela “pensa com a cabeça de Campinas, que hoje é uma ilha que parou no tempo”.

Por Campinas, Rands refere-se a Universidade de Campinas: “só uma universidade aqui não tem articulação internacional: a Unicamp. Ela é endógena. Mas tem uma força no governo Dilma que não tinha no de Lula, que era muito mais próximo do que Marina defende hoje”.

Rands “exagera”, digamos assim.

É fato que a Economia da Unicamp está “à esquerda” da média. Assim como é fato que no primeiro mandato de Lula, social-liberais como Palocci tiveram muita influência. Mas daí não se deduz o restante.

Assim como não é não é fato que as eleições de 2014 são a “primeira vez” em que “cada candidato tem propostas de desenvolvimento baseadas em concepções diferentes”.

Para piorar, Rands é meio tosco na hora de falar destas concepções.

Ele diz que “na visão de Marina, reformas institucionais são importantes, mas mais importante é o impulso da educação, que aumenta a produtividade”.

Diz também que “para os tucanos, bastaria manter o gasto sob controle e crescer. Depois, isso se resolve”.

Já Dilma teria “a visão estruturalista de privilegiar um ou outro setor com políticas discricionárias. O governo fica tentando aumentar o crédito para estimular a demanda. É um modelo econômico altamente inflacionário, baseado no (economista) Celso Furtado”.

Rands agrega ainda o seguinte: “a escola de Campinas e grande parte da esquerda brasileira não conseguiram se libertar de Celso Furtado. Só que é um modelo que gera uma crise dentro dele próprio. O que são R$ 500 bilhões do Tesouro no BNDES para subsidiar empresários? É dinheiro direto na veia dos grandes empresários. Tem coisa mais de direita do que isso?”

Para desagrado dos setores do PSB que, mesmo a serviço de uma candidatura pró-capital financeiro, ainda tentam “manter a classe”, Rands diz que Celso Furtado hoje não faz sentido. E questiona inclusive se já fez sentido em algum momento.

É perfeitamente legítimo e necessário debater os limites da interpretação feita por Celso Furtado.

E, óbvio, gente de direita tentará questionar Celso Furtado também pela direita.

Mas o argumento de Rands é algo indescritível: “Lá atrás, quem seguiu modelo diferente se deu melhor. A ditadura da Coreia do Sul, que na década de 1960 era mais pobre que o Brasil, industrializou, mas sobretudo investiu na educação”.

Leram?

Não se trata apenas da falta de cautela científica, imprescindível quando se pretende fazer análise comparada entre países como Brasil e Coréia do Sul.

O problema principal é: trata-se de alguém importante numa campanha presidencial, campanha que considera como o mais importante o impulso da educação que aumenta a produtividade, que dá uma entrevista elogiando uma ditadura por investir sobretudo em educação.

Rands entra para a direita dando seta para a esquerda: no Brasil, segundo ele, temos um “governo subjugado ao empresariado". 

Até aí, Rands repete a cantilena. Mas ele resolveu florear e saiu-se assim: "Dilma detesta os empresários, mas todas as políticas são para eles fazerem o que bem entenderem. O governo bate, mas depois convida para um drinque. Trata os empresários como prostitutas. Quer estar com elas, desfrutar de suas benesses, mas depois vai denegrir sua imagem”.

Deixo para outros uma análise literária destas frases. Temo que nem Freud explique todos os preconceitos presentes na comparação utilizada por Rands.

Agora, quanto a consistência política do que é dito, valeria perguntar exatamente o mesmo que o Globo pergunta a Rands: “Se os empresários lucram, como explicar a resistência à reeleição de Dilma?”

Ou seja: por quais motivos o grande empresariado brasileiro reagiu de uma maneira entre 2006 e 2010 e reage de outra maneira, entre 2011 e 2014? Descobrir estes motivos exige analisar, também, o que ocorreu com os chamados "setores médios" e com os trabalhadores assalariados.

Responder a estas questões permitirá debater, com seriedade, não apenas as relações existentes hoje, entre cada setor do empresariado e o governo Dilma; mas principalmente debater quais os limites e possibilidades do segundo mandato.

Dito de outra maneira, permitiria debater, para além de frases feitas,  quais as "propostas de desenvolvimento baseadas em concepções diferentes” de cada candidatura presidencial.


Infelizmente, a resposta de Rands ao Globo é a seguinte: “você acha que as prostitutas confiam nos homens que recebem? Chamariam um deles para a festa de aniversário do filho? Claro que não. Só têm interesse e medo”.

Do ponto de vista das ideias, é um desastre. Mas sem dúvida ajudam a esclarecer a "qualidade" do pensamento da equipe de Marina.







O que falta para Dora Kramer?


A jornalista Dora Kramer acusou a campanha do PT de não estar “preocupada com a verdade dos fatos”.

Kramer vai além.

Diz que o PT não estaria preocupado com a “verdade dos fatos” porque “não está falando para os informados”, porque “aposta na massa que não dispõe de dados nem discernimento suficientes para cotejar os fatos”.

Será mesmo?

Vejamos um exemplo.

Dora Kramer reclama da “narrativa da propaganda eleitoral petista”, segundo a qual “Marina é candidata dos banqueiros a quem pretende entregar o País caso seja eleita presidente, permitindo que aquela gente malvada leve à miséria o povo brasileiro”.

Quem é desinformado?

Quem não tem discernimento?

São os trabalhadores pobres deste país, que votam em Dilma? Ou é Dora Kramer?

Vejamos o que diz o jornal Valor, no dia 16 de setembro: Há seis anos o banco de investimento americano Lehman Brothers foi à falência e a economia mundial ainda está longe de ter se recuperado da debacle financeira de 2008. Em relatório econômico divulgado ontem, os economistas da OCDE resumem o momento: fraqueza econômica persistente, crescimento potencial em queda, a desigualdade em alta, os desequilíbrios externos e ameaças à estabilidade financeira ainda estão no horizonte. As principais economias ainda estão às voltas com as políticas adotadas para responder à mais grave crise do capitalismo desde a Grande Recessão de 1929. O golpe foi tão forte nos Estados Unidos, onde tudo começou, que o Federal Reserve precisou de três programas de afrouxamento quantitativo para que a economia entrasse em uma rota de recuperação que agora parece firme. A herança deixada preocupa. (...) Após a farra do subprime americano, a crise da dívida soberana foi um segundo e mais poderoso golpe sofrido pelos bancos europeus. Boa parte deles ainda não está com balanços equilibrados e tem pouco interesse ou capacidade para realizar empréstimos, que caem há muito tempo na zona do euro”.

Evidentemente, o jornal Valor não concorda com as políticas do PT para enfrentar a crise.


Mas não tem como negar que a crise é real. 

Que o vínculo entre a crise e o poder do capital financeiro é um fato. 

Assim como é um fato a posição de Marina em favor da independência do Banco Central.

O problema de Dora Kramer e de outros jornalistas não é falta de informação, nem falta de discernimento.

Falta outra coisa.

Valentia fora de lugar


Acho deprimente ler na imprensa afirmações estritamente políticas atribuídas a uma fonte que não quis se identificar.

O uso deste recurso, num debate político, transforma a luta política em fofoca.

Este é um dos defeitos do texto de Otto Filgueiras, intitulado "Negócios da China" (ver ao final).

É um texto cheio de alusões, insinuações, sabe-se lá exatamente a quem, sabe-se lá por qual motivo.
Espero que o autor se dê conta disto e explicite suas críticas. Até para ser coerente com a totalmente desnecessária afirmação de "valentia" com que encerra seu texto.
 
Como disse e repito: não questiono a "honestidade de propósitos" de ninguém. 

Mas do mesmo jeito que Otto tem o direito de atribuir aos que apoiam Dilma uma lista de defeitos, eu tenho o dever de dizer que, NO SEGUNDO TURNO, quem deixar de votar em Dilma estará objetivamente se convertendo em linha auxiliar da direita.

Segue o texto de Otto.

http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10049:submanchete150914&catid=72:imagens-rolantes

Negócios da China


ESCRITO POR OTTO FILGUEIRAS   
SEGUNDA, 15 DE SETEMBRO DE 2014
Não demorou muito tempo para que antigos estalinistas, com métodos fascistas, defensores do governo social-liberal de petistas chapas-branca e comunistas de logotipo, acusassem os que se recusam a votar em Dilma/Lula ora de “acadêmicos”, ora de “linha auxiliar da direita”.

Esquecem, deliberadamente, que o atual governo federal faz alianças com escroques iguais a Paulo Maluf e conta com apoio de Delfim Netto, representante importante da ditadura e mentor do “milagre” econômico.

Muitos são descarados e metidos a valentões. Mas apenas no escritório e na falsa escrita.

Colocam-se ao lado dos que atacam o Hamas e defendem o Estado genocida de Israel, se lambuzam com o bolsa-ditadura, expressão pejorativa cunhada por Elio Gaspari, jornalista usado por eles como fonte em seus livros.

Embora digam o contrário, não estão preocupados com a exploração dos trabalhadores pelo capitalismo: passeiam pra lá e pra cá em carros do ano e com motoristas. Estão desesperados porque dependem financeiramente do atual governo federal.

Têm todo o direito de ser do PT e fazer saudações petistas. Mas não podem fraudar a história. Alguns se dão bem com “negócios da China”.

Há tempos perderam a fibra e deixaram de lado o sonho revolucionário. Acusam, levianamente, e sem apresentar provas, um antigo dirigente da Ação Popular, e importante personagem da história e do livro da Ação Popular, de estar “vendido” aos tucanos e “sentado” no colo de José Serra.

Sabemos que, tão logo passem as eleições, eles vão se atracar de novo. Vão continuar acusando antigos companheiros de inimigos, dizendo a boca pequena que o assassinato do prefeito Toninho do PT, em Campinas, foi recado para os de cima e que os bandidos sequestradores e assassinos de Celso Daniel só pretendiam negociar, mas perderam o controle.

Nunca é demais lembrar que quem com porcos se mistura farelos come. Continuarão dizendo que, na queda do comitê Central do PCdoB, na Lapa, em 1976, pelo menos um não levou tapa. O acusado disse, na época, que assinou o depoimento sem os óculos. Não precisava, porque estava sob tortura e todos os presos aparecem nas fotografias policiais de caras amarrotadas de tanto levar porrada.

A baixaria está na Internet. Essa turma não tem integridade, oficio, é profissional da fraude, já detratou Plínio de Arruda Sampaio. E faz isso para defender um governo que seva banqueiros, administra contradições e crises para perpetuar a espoliação do capitalismo.

Em troca das sobras, do sobejo. Estão na “boa companhia” de José Sarney, Fernando Collor, da mídia comercial, incluindo Veja, rede Globo e outros mais.

Esquecem que Luiza Erundina e Marina Silva - defensora do capitalismo verde e abutre, que ocupou o lugar de Eduardo Campos na disputa presidencial, evangélica com discurso de freira e de ambientalista, mas coladinha no diabo do agronegócio - têm a mesma origem e falação para enganar trouxas.

São da mesma espécie. Não lembram mais o que falaram e escreveram.

Nunca fui do PT e não faço luta interna. Sou apenas um simples repórter, com olhar vermelho, e aprendendo lições.

Embora velho e avariado, arrisco dizer que a valentia de todos eles, juntos, pode ser igual, mas não maior do que a minha.


Leia também:
Otto Filgueiras é jornalista e está lançando, pela editora Caio Prado Júnior, o livroRevolucionários sem rosto: uma história da Ação Popular.

domingo, 14 de setembro de 2014

Quem é a esquerda que a direita usa?

Ao que me parece provocado principalmente por um artigo de Breno Altman, Valério Arcary escreveu novo texto com críticas a Dilma, ao PT e a esquerda petista.

O artigo de Breno Altman foi publicado em http://www.brasil247.com/pt/247/artigos/153194/Por-que-a-ultra-esquerda-brasileira-%C3%A9-residual.htm

O texto de Arcary é reproduzido ao final.

Arcary inicia perguntando: "quem é a esquerda que a direita gosta?"

A resposta mais adequada para esta pergunta é: a direita não "gosta" da esquerda, nunca.

Mas devemos perguntar: quem é a esquerda que a direita usa?

Para esta pergunta, minha sugestão de resposta é: no atual momento, a direita brasileira usa aquela esquerda que ajuda a debilitar Dilma e o PT.

A maior parte do que eu teria a dizer acerca deste tema, já foi dito em textos anteriores, entre os quais Ser de esquerda não é profissão de fé, nem serviços prestados: http://valterpomar.blogspot.com.br/2014/09/ser-de-esquerda-nao-e-profissao-de-fe.html

Tendo em vista o que diz Arcary em seu novo texto, quero acrescentar apenas o seguinte:

1) não concordo que a campanha eleitoral de 2014 seja a "mais imprevisível desde 1989". Desde o final de 2012 já havíamos apontado quais seriam as características fundamentais da eleição presidencial deste ano. Por isto, ao menos no que nos diz respeito, não há "insegurança" nem "falta de serenidade";

2) a violência (e não apenas a "rispidez") desta eleição está vinculada a mudanças no comportamento das classes fundamentais da sociedade brasileira. Na classe trabalhadora, aumentou o contingente dos que encaram com crítica, desconfiança ou indiferença o PT e os governos que o PT encabeça. Na pequena burguesia, aumentou a influência daqueles que consideram o PT e seus governos como "a fonte de todos os males". No grande empresariado capitalista, tornou-se hegemônica a decisão de derrotar o PT e eleger outro governo para o país;

3) as condições em que transcorre a eleição presidencial de 2014 tornam ainda mais necessário "demarcar o campo de classe", seja com setores da esquerda moderada (que conciliam com a direita, com o oligopólio da mídia e com o grande capital, dificultando assim nossa vitória e um segundo mandato superior), seja com setores da "esquerda da esquerda" (que tratam o PT e Dilma como inimigos principais e, agindo assim, convertem-se em linha auxiliar da oposição de direita);

4) Arcary reclama que "não foram poucos os artigos dedicados a diminuir e desqualificar a oposição de esquerda e, em especial, o PSTU, durante o último mês". Bom, ao menos no que me diz respeito, o primeiro texto que li nesta linha foi escrito pelo próprio Arcary, prevendo um baixo resultado eleitoral para o PSTU, para o PSOL e para o PCB. Maiores detalhes estão em http://valterpomar.blogspot.com.br/2014/09/sobre-resposta-de-valerio-arcary.html

5) ao menos em princípio, não considero "indigno" dizer que a "oposição de esquerda cumpre o papel de uma linha auxiliar da oposição de direita". Indigno é ser linha auxiliar da direita. Indigno é acusar alguém de um crime que não cometeu. Assim, se deseja provar que se trata de algo indigno, Arcary precisaria demonstrar que a frase a seguir não é verdadeira: "no atual período histórico, quem acha possível derrotar ao mesmo tempo a direita e o PT, acaba geralmente virando linha auxiliar da direita”. Arcary não consegue provar isto. Com isto, sua reclamação se torna um muxoxo, que considero estranho vindo de alguém que não é propriamente tímido quando se trata de criticar Dilma, o PT e a esquerda do PT;

6) Arcary diz que "na luta política existem mais do que dois campos, situação e oposição. Existem as classes sociais, e elas se expressam através de vários partidos". Isto é verdade. Mas também é verdade que existem alguns momentos em que a luta política se torna polarizada e a disputa envolve apenas dois campos. Um segundo turno presidencial em 2014, por exemplo;

7) Arcary tenta justificar as ações da esquerda da esquerda, hoje, apoiando-se nas ações do PT nos anos 1980. A comparação omite um detalhe fundamental: as circunstâncias históricas. O PT era minoritário em 1980, frente a quem e contra quem? O PT era mais forte (na classe trabalhadora) que os seus concorrentes à esquerda (PCB, PCdoB, MR8). E era minoritário (inclusive na classe trabalhadora) frente aos partidos da burguesia. Arcary sabe disso e lembra que o PT "surgiu desafiando a liderança do MDB e, portanto, dividindo a unidade das oposições à ditadura". Mas Arcary não percebe que é nisto que reside uma diferença fundamental entre o PT dos anos 1980 e a "esquerda da esquerda" nos dias atuais: o PT dos anos 80 representava a maior parte da vanguarda da classe trabalhadora brasileira, contra a hegemonia da oposição burguesa na luta contra a ditadura. Já a "esquerda da esquerda" busca representar uma minoria da classe trabalhadora, contra um partido que reúne a maior parte da vanguarda da classe trabalhadora. Não é possível esquecer este "detalhe" --que classe e fração de classe cada partido representa e contra quem luta--  quando comparamos a esquerda dos anos 1980 com a esquerda em 2014;

8) o PCdoB, o MR8 (e também o PCB) acusavam o PT de "dividir as oposições". Mas estes partidos diziam isto porque aceitavam que a liderança da oposição coubesse a burguesia. O PT não aceitava ficar, nem deixar a classe trabalhadora estar sob hegemonia da oposição burguesa. A postura do PT nos anos 1980 era baseada e também favorecida por um forte movimento ascensional de luta e organização da classe trabalhadora. É por isto que o segundo turno da eleição presidencial de 1989 foi Lula contra Collor, não Leonel Brizola, ou Roberto Freire, ou Ulysses Guimarães contra Collor. Já em 2014, a "esquerda da esquerda" não aceita a liderança do PT e tenta mimetizar, contra o Partido dos Trabalhadores, o combate que travamos contra a oposição liberal nos anos 1980. Como os alvos são distintos, mesmo quando ocorre um movimento ascensional de lutas, não é a "esquerda da esquerda" que capitaliza, como vimos nas jornadas de 2013;

9) eu não discuto a "legitimidade" das candidaturas de Mauro Iasi, Zé Maria, Luciana Genro e Rui Pimenta (do PCO, partido que Arcary sei lá por qual motivo exclui de seus comentários). No que me diz respeito, acho que a "esquerda da esquerda" tem o direito e o dever de ter candidatura própria no primeiro turno. O que eu pergunto é o que farão no segundo turno;

10) Arcary diz ser falsa a "premissa de que, quem não está conosco, objetivamente, é aliado dos nossos inimigos". Mas Arcary não prova que esta premissa seja falsa. No que me diz respeito, não discuto a "honestidade subjetiva" da "esquerda da esquerda". Nem afirmo que aquela premissa seja uma tese válida para todo e qualquer momento. Nem digo que valha para todos. O que eu disse e repito é que "no atual período histórico, quem acha possível derrotar ao mesmo tempo a direita e o PT, acaba geralmente virando linha auxiliar da direita”;

11) a classe trabalhadora possui várias frações. Achar que o PT representa a todas seria, de fato, uma tolice. Até porque uma parte da classe trabalhadora vota nas candidaturas da direita, da burguesia. A questão é outra: em que circunstâncias pode ser justo que um partido de esquerda, que representa um setor da classe trabalhadora, transforme outro partido, que também representa um setor da classe trabalhadora, em inimigo principal? Mais exatamente: nas circunstâncias de um segundo turno da eleição presidencial de 2014, é justo que a "esquerda da esquerda" transforme o PT em inimigo principal? Se a "esquerda da esquerda" fizer isto, ela não chamará o voto em Dilma num segundo turno de 2014. E isto ajudará, objetivamente, a candidatura da burguesia e prejudicará objetivamente a candidatura do Partido que, no atual momento histórico, expressa a posição majoritária na vanguarda da classe trabalhadora. O que, entre outras coisas, não é um caminho inteligente para quem deseja ganhar maioria na classe trabalhadora, o que suponho seja o desejo de qualquer pessoa de esquerda;

12) obviamente não sou contra determinada minoria, por ser minoria. A questão que discuto é: qual a política desta minoria? É uma política que ajuda a classe trabalhadora a derrotar a burguesia? No caso concreto da eleição de 2014, há setores da "esquerda da esquerda" que adotam uma política na minha opinião prejudicial aos interesses da classe trabalhadora. Traduzindo: é melhor, é mais fácil, defender os interesses da classe trabalhadora no contexto de um governo encabeçado pelo PT do que no contexto de um governo encabeçado pela direita, pela burguesia. A política de setores da "esquerda da esquerda" parte, geralmente, de outra premissa: a de que derrotar o PT é condição essencial para o avanço da classe trabalhadora. Quando age assim, a política desta minoria (presente nos partidos da "esquerda da esquerda") é prejudicial para a classe trabalhadora e, aliás, é prejudicial para a própria minoria, que também por este motivo não consegue avançar além de certos limites;

13) ser maioria não dá razão para ninguém. Nem ser minoria tira a razão de ninguém. Mas a luta política não é uma disputa para saber quem tem razão. A luta política é uma disputa pelo poder. E para um partido de esquerda, uma premissa para conquistar o poder é conquistar a maioria na classe trabalhadora. Arcary fala dos bolcheviques, diz que "foram ínfima minoria na Segunda Internacional em 1914" e "minoria na Rússia até Agosto de 1917, portanto, durante mais de vinte anos". Mas deixa de citar o fundamental, do meu ponto de vista: qual foi a política desenvolvida pelos bolcheviques para ganhar maioria junto a classe operária russa e qual a política que eles adotaram para manter e ampliar esta influência, especialmente nos períodos não revolucionários. Quem conhece a história destes períodos sabe que os bolcheviques tinham uma admirável flexibilidade, que a "esquerda da esquerda" faria muito bem em estudar;

14) eu não acho relevante, neste debate, discutir se a "audiência" da "esquerda da esquerda" é ou não "residual". Meu problema, volto mais uma vez ao ponto, não é discutir o tamanho de ninguém. Quero discutir a política. Pois quem tem a política certa, pode influenciar, pode crescer, pode até deixar de ser minoria. Mas quem tem a política errada, não importa se é maioria ou minoria, prejudica os interesses da classe trabalhadora. E, voltando ao meu tema preferido, a atitude frente a eleição presidencial de 2014 é muito importante;

15) Arcary diz que "a possível vitória de Dilma, que permanece incerta, se acontecer, significará uma derrota, não uma vitória da esquerda petista. Porque será para a esquerda petista uma vitória de Pirro". Arcary erra. Se Dilma perdesse, seria uma derrota para toda a classe trabalhadora e para toda a esquerda, inclusive para a esquerda petista e, pasmem, até mesmo para os setores honestos da "esquerda da esquerda". Já a vitória de Dilma será uma vitória para toda a classe trabalhadora, inclusive para a esquerda petista e, num certo sentido, até mesmo para os setores honestos da "esquerda da esquerda". Entendo por honestos aqueles que tem efetivo compromisso com melhorar a vida e a influência política da classe trabalhadora. Agora, evidente que a história não termina no segundo turno de 2014. Por isto, não está em disputa apenas a vitória de Dilma, mas a natureza do segundo mandato Dilma. Quanto mais à esquerda formos na disputa eleitoral, melhores as chances de termos um segundo mandato superior do ponto de vista dos interesses da classe trabalhadora. Mas isto não está dado, como nunca nada está dado;

16) Arcary afirma que "o argumento de que os governos do PT foram um período de resistência ao neoliberalismo é uma fantasia exagerada, portanto, insustentável, em um debate sério. Em outras palavras, pensamento mágico. Expressão pura da força do desejo". É claro que houve resistência ao neoliberalismo durante o período 2003-2014. A questão, portanto, é outra: em que medida a ação dos governos encabeçados pelo PT contribuiu para esta resistência. Para responder esta questão, é preciso discutir qual a responsabilidade dos governos Lula e Dilma no fato de que a classe trabalhadora vive melhor hoje do que no período de governos tucanos. Ou debater, hipoteticamente, se a classe trabalhadora viveria igual ou pior, caso o PSDB tivesse vencido as eleições de 2002, 2006 e 2010. Ou, ainda, responder se os governos Lula e Dilma não contribuíram para que o Brasil tivesse, hoje, um desemprego inferior ao que existe em várias metrópoles do capitalismo. Qualquer "debate sério" sobre isto concluirá que, apesar de todas as concessões e contradições, os governos Lula e Dilma contribuíram para a resistência ao neoliberalismo;

17) Arcary reconhece que houve uma "tentativa de redução da taxa de juros", que houve "crescimento entre 2004 e 2008, com uma retomada em 2010", que houve "uma redução do desemprego", que houve uma "recuperação do salário médio para os níveis de 1990", que houve "reformas progressivas durante os últimos doze anos", que "houve aumento do salário mínimo acima da inflação", que houve "elevação do crédito popular com os empréstimos consignados", que houve "expansão do Bolsa Família como política de emergência assistencial", que houve "sensação de alívio depois da degradação das condições de vida pela superinflação dos anos oitenta, e estagnação dos anos noventa". Mas, segundo ele, "nada disso" é o bastante para definir os governos do PT como "reformistas. Porque foram muito mais numerosas as contra-reformas". Infelizmente Arcary não cita a lista de contra-reformas. Mas convenhamos: qualquer que seja a lista, isto não vai alterar alguns dados básicos, citados por ele mesmo, a saber: o emprego, o salário e a sensação de alívio. Como Arcary mesmo diz, não importa o tamanho da montanha, ela não pode tapar o sol.

Finalmente: num segundo turno das eleições presidenciais, haverá duas alternativas. Então, quem não votar em Dilma, vai agir objetivamente como linha auxiliar da oposição de direita. Ou seja, uma "esquerda" que a direita usa.


Segue abaixo o texto de Valério Arcary, tal qual o autor me enviou.


Quem é a esquerda que a direita gosta?
                                              Valerio Arcary
Não importa o tamanho da montanha, ela não pode tapar o sol.
Sabedoria popular portuguesa

      A campanha eleitoral de 2014 é a mais imprevisível desde 1989. É natural, por isso, que seja a mais ríspida. A aspereza das reações polêmicas é proporcional à incerteza de quem vencerá as eleições presidenciais. A insegurança é inimiga da serenidade. Não foram poucos os artigos dedicados a diminuir e desqualificar a oposição de esquerda e, em especial, o PSTU, durante o último mês.
      Valter Pomar afirmou, por exemplo, concluindo um texto recente: "no atual período histórico, quem acha possível derrotar ao mesmo tempo a direita e o PT, acaba geralmente virando linha auxiliar da direita”. [1] Outros militantes da esquerda petista têm asseverado que o PSTU seria um partido irrelevante porque Zé Maria não superou 1% das preferências de voto nas pesquisas de opinião. Breno Altman, por exemplo: “Mas não é apenas a influência eleitoral desses partidos que é pífia. Também são forças de pouca envergadura no movimento sindical, estudantil e camponês. Não passam de franjas isoladas na intelectualidade (...) Ainda que se possa criticar os governos de Lula e Dilma pela eventual opção por um reformismo fraco, no dizer de André Singer, o fato é que se constituíram em ferramentas de resistência ao neoliberalismo em todos os terrenos.  (...) a insistência nessa política sectária faz da ultra-esquerda um aliado objetivo das forças reacionárias nos momentos de grande polarização e disputa.” [2]
      Os quatro argumentos podem impressionar, mas são falsos. Primeiro, a acusação de que a oposição de esquerda cumpre o papel de uma linha auxiliar da oposição de direita é indigna. Não vale tudo na luta política. Linha auxiliar da oposição burguesa é uma  denúncia pesada. Qualquer pessoa pode compreender que na luta política existem mais do que dois campos, situação e oposição. Existem as classes sociais, e elas se expressam através de vários partidos.
       Com esta insinuação absurda- “aliados objetivos de forças reacionárias”- os dirigentes da esquerda petista não estão ofendendo somente  a oposição de esquerda. Estão, também, desafiando a inteligência da sua própria militância, porque estão agredindo a historia do PT.
       O amálgama da oposição de esquerda com a de direita, pode parecer, politicamente, eficaz, mas é desonesto. Um mínimo de decência na polêmica de ideias exige reconhecer que os partidos da oposição de esquerda tem atacado, implacavelmente, a oposição de direita, seja Marina ou Aécio. Tanto, ou até mais do que a candidatura do governo. Zé Maria deu a palavra a Osmarino Amâncio para denunciar que Marina Silva não era herdeira dos ideais de Chico Mendes.
      Se este critério fosse para ser levado a sério, o PT não poderia ter nascido. Porque o PT surgiu desfiando a liderança do MDB e, portanto, dividindo a unidade das oposições à ditadura. Por este critério, a candidatura de Lula em 1982 contra Montoro e Reynaldo de Barros, homem de Maluf, era ilegítima, porque favorecia a vitória do partido da ditadura. Foi essa a acusação que o PCdB e o MR-8 fizeram durante quase uma década, nos anos oitenta, ao PT.
     A premissa de que, quem não está conosco, objetivamente, é aliado dos nossos inimigos é falsa. Mas o pior é que este raciocínio binário vem associado a outro mais perigoso. Realmente, ainda há quem pense que só o PT representa os trabalhadores e seus interesses? Não parece bizarra esta conclusão, se a esquerda petista não pode deixar de admitir que, durante doze anos, os grandes grupos capitalistas não pararam de ver os seus lucros crescerem? Alguém poderia explicar, por exemplo, se o PT é o único partido que defende os trabalhadores, por que o Ministro da Justiça do governo Dilma e dirigente do PT, José Eduardo Cardoso, quando da greve dos metroviários contra Alckmin em São Paulo declarou: “Seja para o que for, o governo do Estado pode contar com o apoio instrumental do governo federal”.[3]
       Em segundo lugar, ser maioria não é o bastante para demonstrar quem tem razão em uma polêmica política. Apenas evidencia qual é a proposta, ou o partido, ou a candidatura que tem maior apoio, em determinada circunstância. O apoio que uma proposta, um projeto, uma candidatura pode ter não prova nada, absolutamente nada, sobre a correção da política defendida.
      Os bolcheviques, uma referência que compartilhamos, foram ínfima minoria na Segunda Internacional em 1914. Foram, também, minoria na Rússia até Agosto de 1917, portanto, durante mais de vinte anos. Parece até um pouco cruel ter que recordar para lideranças da esquerda petista que são minoria, há pelo menos duas décadas dentro do PT, que o fato de terem sido, sistematicamente, derrotados, não invalida as propostas que defenderam.
     Um partido pode sair derrotado, eleitoralmente, e ainda assim obter uma vitória política. Ou o contrário, sair derrotado, politicamente, apesar de uma vitória eleitoral. O PT saiu derrotado das urnas, em 1989, mas fortalecido. Um partido que renuncia ao seu programa para surfar uma onda eleitoral, absorvendo as ideias de outros partidos, pode ter uma excelente votação, mas sairá das eleições, derrotado. Em outras palavras, uma avaliação séria com o objetivo de compreender se um partido foi ou não, politicamente, vitorioso deve ter como critério um exame da defesa ou não do seu programa. Não somente o sucesso eleitoral.
      A audiência do PSTU não é tão residual quanto pensa a esquerda do PT. Os trotskistas estiveram presentes e com um papel destacado em grande parte das lutas recentes mais importantes: construção pesada em Belo Monte no Pará, Comperj no Rio de Janeiro, petroleiros em mais de uma dezena de Estados, professores por todo o país, rodoviários de Porto alegre e Pernambuco, garis e bombeiros no Rio, metroviários e USP em São Paulo, etc. Ao defender uma saída socialista para o Brasil, ainda que tenha poucos votos, o PSTU será politicamente vitorioso, porque esta proposta corresponde às necessidades da revolução brasileira. Derrotados serão os socialistas cujos partidos não estiveram nas lutas, e nas eleições não defenderam o socialismo.
       É fácil compreender porque deve ser aconchegante para dirigentes da esquerda do PT saborearem a perspectiva de uma derrota eleitoral do PSTU como uma confirmação de sua estratégia de hibernação secular. Só que não é. Trata-se de mais um caso clássico de autoengano: uma alegria ilusória. A possível vitória de Dilma, que permanece incerta, se acontecer, significará uma derrota, não uma vitória da esquerda petista. Porque será para a esquerda petista uma vitória de Pirro.[4] Pomar, que é um observador mais lúcido já sentiu o cheiro do perigo.[5]
       Os primeiros cem dias de um possível segundo mandato de Dilma serão suficientes para que fique claro o tamanho do ajuste fiscal que vem por aí, entre outras medidas reacionárias. Claro que uma derrota de Dilma será uma irrevogável derrota da esquerda petista. Mas a dialética do processo é que uma possível vitória de Marina será, também, uma derrota dos trabalhadores, porque Marina fará um ajuste tão grande, senão maior, do que o de Dilma, com as trágicas consequências de aumento do desemprego e queda do salário médio. Em resumo, 2015 não parece nada prometedor.
      Em terceiro lugar, a explicação da provável pequena votação das candidaturas presidenciais do PSTU, PSOL e PCB não reside no seu posicionamento como oposição de esquerda. Aliás, é surpreendente que, um ano depois de Junho de 2013, ainda exista tanta teimosia em admitir que uma parcela majoritária da juventude assalariada urbana com escolaridade mais elevada tenha se deslocado para a oposição.
      Como ficou evidente em sucessivas pesquisas, é na faixa etária até 35 anos, nos setores sociais com renda entre dois e cinco salários mínimos, e entre aqueles com ensino médio completo e superior incompleto que a candidatura Marina Silva tem maior vantagem em relação a Dilma. Imaginar que essa votação corresponde à velha classe média reacionária é, simplesmente, cegueira indefensável. É obtuso. Não foi, portanto, pelo seu posicionamento como oposição ao governo de coalizão com o PMDB de Renan Calheiros, dirigido por Dilma, em nome do PT, que a oposição de esquerda tem poucos votos.
       A baixa votação remete a temas muito mais complexos, e que exigem diferentes níveis de análise para serem compreendidos, mas que o marxismo inspirado em Leon Trotsky caracterizou com a crise de direção do proletariado. Mas como este conceito é muito mal interpretado, para resumir, portanto, simplificando, repousam ainda, entre outros fatores: (a) na avalanche de votos que se dirigiram para Marina como uma mediação que, embora esteja em uma aliança com a oposição de direita, não é assim percebida por esta parcela da juventude trabalhadora que a vê como uma alternativa e, para não poucos, até à esquerda de Marina; (b) no estágio de imaturidade política desta geração de trabalhadores jovens, um processo no qual o PT, depois de 12 anos no poder, tem responsabilidades, como ficou mais uma vez escancarado com o novo escândalo da Petrobras e as “relações perigosas” com o PP de Maluf, o PMDB de Sarney, etc.; (c) na falta de confiança dos batalhões mais maduros dos trabalhadores em suas próprias forças, que leva a que as propostas da oposição de esquerda, ainda que indispensáveis, pareçam demasiado radicais, e o voto no PT, apesar do reformismo quase sem reformas, um mal menor; (d) no fenômeno mais amplo das ilusões no próprio processo eleitoral como via indolor para a transformação econômico-social do país, o que, evidentemente, não é possível. 
      Por último, em quarto lugar, o argumento de que os governos do PT foram um período de resistência ao neoliberalismo é uma fantasia exagerada, portanto, insustentável, em um debate sério. Em outras palavras, pensamento mágico. Expressão pura da força do desejo.
      Resistência ao neoliberalismo? O eixo central da estratégia neoliberal foi o tripé macroeconômico que Lula preservou dos governos de Fernando Henrique. Até as pedras das calçadas da Avenida Paulista sabem que a política de Palocci foi um sonho de consumo da burguesia brasileira. Que a preservação das metas inflacionárias, do superávit fiscal, e do câmbio flutuante, para garantir a segurança da rolagem da dívida pública na mão dos rentistas, foi a estratégia central para blindar a governabilidade dos governos de coalizão dirigidos pelo PT. Não por acaso o governo manteve relações amigáveis com o agronegócio, com as montadoras e a FIESP, com os banqueiros, etc.
      A tentativa de redução da taxa de juros, durante dois anos dos quatro do mandato de Dilma, foi o bastante para levar a esquerda petista, e até o MST, a sonhar com um novo curso desenvolvimentista. Foi, como o último ano demonstrou, só um ensaio, rapidamente, interrompido.
tarem se integrar às manifestações de junho do ano passado, não tiveram papel de relevo e tampouco se constituíram em referência para as massas juvenis que ocuparam as ruas.
Diversos motivos poderiam ser identificados para desempenho tão marginal. Há interpretações sociológicas e políticas de diversas matizes para ajudar a compreender essa fragilidade. Mas creio que existe, ao menos entre seus militantes de boa fé, uma razão de fundo para tamanho isolamento: a política de todas essas correntes é baseada na ideia de hipotética traição do PT ao programa de esquerda e aos interesses do proletariado.
De acordo com esta interpretação, teria ocorrido fenômeno semelhante ao que se passou com a social-democracia européia. O partido de Lula teria assumido o mesmo programa neoliberal do capital financeiro, transitado de armas e bagagens para o campo da burguesia rentista e renunciado à construção de um projeto independente dos trabalhadores. Segundo esse raciocínio, ainda que haja diferenças táticas, o PT e os demais partidos burgueses seriam farinha do mesmo saco.
Esta posição empurra facilmente setores da ultra-esquerda para assumir o discurso falsamente moralista da direita contra o PT e até se alinhar com o conservadorismo quando se trata de fazer oposição ao governo petista.
A absoluta falta de audiência popular à sua narrativa poderia levar estas correntes a refletir sobre a justeza ou não de sua política, mas não o fazem. Prevalecem o dogmatismo, o rancor de ex-petistas e a origem de classe: afinal, a maioria esmagadora de seus quadros tem origem nas camadas médias, onde viceja ambiente generalizado de ódio e desconfiança contra o PT.
O erro fundamental de sua análise consiste em não compreender que a natureza petista e seu papel concreto nada tem a ver com a social-democracia dos dias atuais. Ainda que se possa criticar os governos de Lula e Dilma pela eventual opção por um reformismo fraco, no dizer de André Singer, o fato é que se constituíram em ferramenta de resistência ao neoliberalismo em todos os terrenos.
Estes últimos doze anos foram marcados pela expansão dos gastos públicos, pela adoção de políticas distributivistas, pela ampliação de direitos sociais, pelo aumento do emprego e da renda dos trabalhadores. O Estado está sendo paulatinamente reconstruído como epicentro de um modelo econômico que associa desenvolvimento e criação de um mercado interno de massas, através de mecanismos para a inclusão social. No mais, o país impulsiona política internacional contra-hegemônica e de apoio à integração de blocos que se separam do campo de gravidade do imperialismo norte-americano.
Como se pode ver, pela realidade dos fatos, um caminho absolutamente distinto da social-democracia européia. Não apenas por questões programáticas, mas também pela posição na luta de classes: não é à toa o esforço beligerante do núcleo dirigente da burguesia para derrotar o PT a qualquer preço, aceitando até o risco de inflar uma candidatura de oportunidade como a de Marina Silva.
Há espaço, à esquerda do PT, para forças que pressionem pelo aprofundamento e a aceleração de reformas, buscando forjar um bloco histórico que mude a qualidade do processo de mudanças. Mas essa orientação é impossível para quem vê no PT o inimigo principal ou como integrante do campo político e classista da burguesia. Essa postura visceralmente antipetista não provoca apenas isolamento dentro da esquerda, mas também tornam inacessíveis os ouvidos das dezenas de milhões de trabalhadores, de pobres do campo e da cidade, cuja vida melhorou admiravelmente desde a posse de Lula em 2003.
Por fim, a insistência nessa política sectária faz da ultra-esquerda um aliado objetivo das forças reacionárias nos momentos de grande polarização e disputa. O caso mais emblemático foi o processo do chamado "mensalão", mas muitos foram os episódios políticos e eleitorais nos quais essa lógica se reproduziu. Afinal, se o governo é do PT e esse partido passou para o outro lado, transformado em instrumento da dominação burguesa, contra essa administração deve ser a direção do golpe principal.
Trata-se da fórmula perfeita para a irrelevância e a residualidade      É verdade que o crescimento entre 2004 e 2008, com uma retomada em 2010, no contexto de uma recuperação do capitalismo mundial depois da crise de 2000/01, favoreceu uma redução do desemprego, e esta pressão permitiu uma recuperação do salário médio para os níveis de 1990, antes da posse de Collor. Não houve reformas progressivas durante os últimos doze anos? Sim, houve. Mas muito poucas. Reformismo fraco é uma conceituação muito benigna da parte de André Singer. O aumento do salário mínimo acima da inflação, a elevação do crédito popular com os empréstimos consignados, a expansão do Bolsa Família como política de emergência assistencial, explicam a sensação de alívio depois da degradação das condições de vida pela superinflação dos anos oitenta, e estagnação dos anos noventa. Mas não são o bastante para definir os governos do PT como reformistas. Porque foram muito mais numerosas as contra-reformas.
     Como dizem os portugueses, não importa o tamanho da montanha, ela não pode tapar o sol.
    



(1) ALTMAN, Breno. Por que a ultra-esquerda brasileira é residual? 11/09/2014. In https://www.facebook.com/breno.altman

 (1) POMAR, Valter. Ser de esquerda não é profissão de fé, nem serviços prestados. 10/09/2014, In http://valterpomar.blogspot.com.br/2014/09/ser-de-esquerda-nao-e-profissao-de-fe.html

[3] Fonte: CBN (09/06/2014)

[4] Trata-se de uma expressão que explica como há vitórias que se transformam em derrotas. Por exemplo, quando uma vitória é conquistada ao custo de prejuízos irreparáveis.

[5] POMAR, Valter. Eles têm um plano C. 12/09/2014. In  http://valterpomar.blogspot.com.br/2014/09/eles-tem-um-plano-c.html

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Eles têm um plano C

A classe dominante estava no plano A: Aécio.

Agora está no plano B: Marina.

Mas também tem um plano C: pressionar o segundo mandato de Dilma, para que este não corresponda aquilo que própria presidenta, Lula e o PT vem defendendo na campanha eleitoral.

Dizendo de outro jeito: a classe dominante, o grande empresariado capitalista, tem diferentes frações, bem como diferentes representantes políticos e intelectuais.

Nos últimos anos, o conjunto destas segmentos fez uma opção majoritária anti-PT e anti-Dilma. 

Derrotados eleitoralmente, não se farão de rogados e buscarão outros caminhos para implementar seus planos de "ajuste fiscal, desemprego e redução de salários".

Buscarão, não.

Já estão buscando.

Sinais desta busca estão no artigo de Claudia Safatle no Valor Econômico de 12 de setembro, discutindo como seria a "nova Dilma" num segundo mandato.

O texto é parcialmente baseado em declarações atribuídas a um "integrante da campanha à reeleição", que teria explicado "o que o PT imagina que viriam a ser mais quatro anos de governo Dilma".

Reproduzido na íntegra ao final, o texto informa que para o "núcleo da campanha", a "nova Dilma" seria:

-uma pessoa mais afeita ao diálogo
-mais propensa a ouvir
-menor disposição a experimentar suas próprias ideias.
-ação mais amigável junto ao setor privado, especial atenção à indústria que definha e à classe média.

Genial, não?

Pela suposta boca de um suposto integrante da campanha, temos uma lista de defeitos

Estabelecida a premissa (Dilma teria que ser outra), o texto continua: "talvez esse grupo não saiba, mas Dilma terá tarefas urgentes já no dia 27 de outubro".

Depois de se apoiar num suposto "integrante da campanha", que supostamente fala pelo "núcleo da campanha", a jornalista passa a informar como Dilma deve agir para "reconstruir as pontes que ela mesma dinamitou no curso da campanha".

Ou seja: uma campanha eleitoral que está conseguindo politizar e ganhar o apoio do povo, é criticada por dinamitar pontes com setores da elite e seus queridinhos.

Claro: para certa imprensa, esquerda boa é aquela que apanha, perde e muda de lado.

A preocupação da jornalista é monotemática: "não bastará recompor a figura do ministro da Fazenda, tratado com descuido nos últimos dias, como carta fora do baralho. Importante será decidir o que fazer com o Banco Central, instituição cuja reputação vem sendo destroçada por Dilma nas últimas semanas, tanto nas declarações que faz para os jornais quanto na propaganda do horário eleitoral".

Portanto, a reputação do Banco Central seria "destroçada" toda vez que dizemos tratar-se de um banco público, portanto deve estar subordinado às instituições eleitas pelo povo. 

Esta concepção democrática acerca do BC, óbvio, não pode mesmo agradar a quem acredita que o compromisso primeiro de qualquer governo é "preservar o valor da moeda". Nem  a quem leva a sério a comparação entre o Banco Central e a invenção da roda.

Correndo o risco da repetição, perguntamos: em que mundo esta gente vive?

Como é possível que num mundo vítima de imensa crise econômica, crise que tem como epicentro a atuação da banca, num jornal especializado em economia, seja possível ler um texto que critica como "deformado" o propósito de manter o Banco Central "controlado com rédeas curtas pela presidente da República e pelo Congresso, sob o risco de servir à ganância desmedida dos bancos".

A quem serve um Banco Central, se não for controlado "com rédeas curtas" pelos representantes da população???

Desde quando criticar a proposta de independência do Banco Central marca "um impensável retrocesso institucional que pode custar caro ao país"???

O trecho final do artigo de Claudia Safatle recorre novamente ao off, desta vez de uma "alta fonte" (sic) e de "um amigo e ex-colaborador de Lula".

A primeira teria dito que "todos os presidentes reeleitos mudaram" e que "nós aprendemos errando". A segunda diz que Dilma teria "pouco compromisso com a realidade". Ou seja, uma prevê mudanças, outra não, mas ambas criticam a presidenta. 

Claudia Safatle conclui dizendo que "Dilma pode não se reinventar mas, para o bem do país, terá que ao menos atualizar as suas convicções e recuperar a política econômica".

Moral da história: a batalha pela natureza do segundo mandato Dilma não termina na eleição. 







PT à espera de uma "nova Dilma" - Claudia Safatle- Valor Econômico 
Um eventual segundo mandato da presidente Dilma Rousseff será, como ela própria disse, um "governo novo, equipe nova". Isso, porém, não basta. Terá que trazer, também, uma "nova Dilma". Foi sublinhando por mais de uma vez a necessidade de transformação da pessoa da presidente da República, que um integrante da campanha à reeleição explicou o que o PT imagina que viriam a ser mais quatro anos de governo Dilma.
Para o núcleo da campanha, a "nova Dilma" seria uma pessoa mais afeita ao diálogo, mais propensa a ouvir, o que significaria menor disposição a experimentar suas próprias ideias.
Supostas mudanças na política econômica, nesse caso, não alterariam a essência da estratégia, de ênfase nas políticas sociais, na redução das desigualdades e no mercado interno, disse a fonte. Mas seriam conciliadas com uma ação mais amigável junto ao setor privado, especial atenção à indústria que definha e à classe média.
Se reeleita, talvez esse grupo não saiba, mas Dilma terá tarefas urgentes já no dia 27 de outubro: começar a reconstruir as pontes que ela mesma dinamitou no curso da campanha.
Não bastará recompor a figura do ministro da Fazenda, tratado com descuido nos últimos dias, como carta fora do baralho. Importante será decidir o que fazer com o Banco Central, instituição cuja reputação vem sendo destroçada por Dilma nas últimas semanas, tanto nas declarações que faz para os jornais quanto na propaganda do horário eleitoral.
A missão primordial do Banco Central - preservar o valor da moeda - que deve ser também o compromisso primeiro de qualquer governo, transformou-se nas mãos da campanha eleitoral de Dilma, em uma tarefa que, se exercida, fará apenas a alegria dos banqueiros.
Pode-se alegar que isso é somente um recurso eleitoreiro. Uma maneira de desqualificar a proposta acatada pela candidata adversária, Marina Silva, do PSB, em favor da autonomia do BC.
Mas, ao expor em praça pública um desenho deformado do Banco Central - como uma instituição que precisaria ser controlada com rédeas curtas pela presidente da República e pelo Congresso, sob o risco de servir à ganância desmedida dos bancos - Dilma feriu de morte a credibilidade do BC para desempenhar o papel que lhe cabe de coordenar as expectativas, conter a inflação, preservar o poder de compra da moeda e garantir a estabilidade financeira. Ou seja: impedir que o dinheiro que o trabalhador recebe ao final do mês se transforme em pó pela corrosão inflacionária.
Alguns estudiosos da história monetária comparam a importância dos bancos centrais, para a civilização, à invenção da roda. Exageros à parte, é preciso entender ao menos os rudimentos da política monetária para formar uma noção do papel do BC e da taxa de juros no controle da inflação, dos canais pelos quais os juros afetam a demanda e chegam aos preços nas gôndolas dos supermercados, tornando a vida das pessoas mais próspera ou não. Destruir a imagem do BC com argumentos forjados por marqueteiros marca um impensável retrocesso institucional que pode custar caro ao país.
A demissão antecipada do ministro da Fazenda, Guido Mantega, não foi um ato impensado da presidente. Foi o que sobrou da tentativa do ex-presidente Lula de convencer Dilma a fazer uma "Carta aos Brasileiros". Não como a que ele fez em 2002, comprometendo-se com o respeito a contratos e com a estabilidade econômica. A versão da carta de Dilma seria para apontar a direção de eventuais mudanças na política econômica em um segundo mandato.
A substituição de Mantega não era uma novidade. Ninguém contava com ele por mais quatro anos. Mas a forma como foi anunciada constrangeu o ministro, sempre leal à presidente, e deixou acéfala por quatro meses a pasta da Fazenda. Dilma dispensou o ministro, mas nada disse sobre o secretário do Tesouro, Arno Augustin, em tese o responsável pela forte deterioração das contas públicas.
A fé no surgimento de "nova Dilma" foi replicada por uma alta fonte: "Todos os presidentes reeleitos mudaram. Ficaram sob um novo contexto e uma outra correlação de forças no Congresso". Além do que "ela (Dilma) já reconheceu que nem tudo está perfeito. Nós aprendemos errando", disse a fonte.
Essa é uma visão otimista. Há outras, formuladas por interlocutores próximos do ex-presidente Lula: a profunda discordância entre Dilma e Lula ficou clara a partir de 2012, quando ela começou a implementar a "nova matriz macroeconômica", modelo de vida curta, implementado na marra, com juros baixos, câmbio desvalorizado e política fiscal expansionista; e a praticar o microgerenciamento. "É nisso que ela acredita. Ela tem uma agenda política muito forte e pouco compromisso com a realidade", disse um amigo e ex-colaborador de Lula.
Esse enredo não comportaria, portanto, mudanças radicais, como, por exemplo, Dilma convidar Henrique Meirelles para o lugar de Mantega, na Fazenda, no caso de um segundo mandato.
Em três anos e meio de governo, a presidente não se convenceu da importância da taxa de juros no regime de metas para a inflação e, muito menos, da necessária autonomia do BC para perseguir a meta.
Só a duras penas, e com os movimentos de protesto de rua em 2013, admitiu-se no governo que é preciso mirar a meta de inflação. Até então 6,5% (teto da meta de 4,5%) era tido como patamar bem tolerável.
Os compromissos de geração de superávit primário assumidos pela presidente foram sendo abandonados à primeira dificuldade, em nome de uma política fiscal expansionista supostamente geradora de investimentos e emprego. A crença no sistema de preços foi nula, a intervenção no setor elétrico desastrosa, a confiança no governo minguou e o investimento sumiu.
Dilma pode não se reinventar mas, para o bem do país, terá que ao menos atualizar as suas convicções e recuperar a política econômica.