quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Sobre as declarações da presidenta Gleisi Hoffman

Que vivemos tempos confusos, todos sabemos. Mas ontem foi demais.

A revista Exame, vinculada ao Grupo Abril, disse que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva prepara uma nova “Carta ao Povo Brasileiro”. E – citando uma dirigente do PT – diz que a Carta é para tentar conter novamente o nervosismo do mercado com sua candidatura.

O jornal Folha de S.Paulo, por sua vez, comentou as repercussões de uma declaração – igualmente atribuída a uma dirigente do PT -- segundo a qual "para prender o Lula, vai ter que prender muita gente, mas, mais do que isso, vai ter que matar gente. Aí, vai ter que matar".

O curioso é que ambas as frases – a primeira moderada, a segunda radical -- foram creditadas à mesma pessoa: a presidenta nacional do PT, senadora Gleisi Hoffman.

A primeira declaração não teve muita repercussão. Embora existam diferenças profundas, no PT e na esquerda, acerca de qual deva ser nosso programa de governo, o fato é que Gleisi não disse a frase atribuída pela Exame. A esse respeito, ler:

http://www.valor.com.br/politica/5262013/gleisi-nova-%253Fcarta%253F-de-lula-sera-dirigida-ao-povo-nao-ao-mercado

Já a segunda declaração de Gleisi repercutiu muito. A rigor não se trata de novidade: fizeram o mesmo com Vagner Freitas, quando este falou em pegar em “armas” para defender o mandato da presidenta Dilma; e com Lula, quando este falou nos “exércitos” de Stédile.

Nada mais natural: como todos sabem, existe o monopólio da violência. As elites podem convocar as forças armadas a dar golpes, prender, torturar, assassinar e desaparecer, como ocorreu em 1964 e depois.

As elites também podem orientar as polícias a agir como forças de ocupação, especialmente contra o povo pobre e preto das periferias. E podem difundir um discurso de intolerância e aberto estímulo ao extermínio da esquerda.

Já os setores populares não podem nem mesmo levantar a voz. Nem mesmo quando as elites mudam a regra do jogo no meio do jogo, fazem um impeachment ilegal, dinamitam nossa limitada soberania, destroem nossos poucos direitos sociais, reduzem ainda mais as liberdades democráticas e preparam a condenação de Lula, que comete o “crime continuado” de ter apoio popular suficiente para voltar à presidência da República.

Sendo assim não admira que tanta gente — inclusive petistas — tenha achado necessário “lembrar” a senadora Gleisi disso tudo. Afinal, não se deve esquecer qual é nosso lugar na ordem das coisas: nada de reclamar, nada de protestar, nada de reagir, apanhar calado, morrer em silêncio e ser enterrado sem pompa nem circunstância. Não se pode nem mesmo dizer que, se querem pegar Lula, primeiro vão ter que passar sobre os nossos cadáveres.

Não pode nada disto, por uma razão muito simples: algum dia o povo pode achar que é uma boa ideia transformar uma “força de expressão” numa expressão de força.

 Xxxxxx

Abaixo alguns textos relacionados com esta polêmica

http://www3.redetv.uol.com.br/blog/reinaldo/pt-pode-decretar-prisao-domiciliar-de-gleisi-no-dia-24-ela-ficaria-vendo-o-teipe-do-jogo-bayern-de-munique-x-bayer-leverkusen/

http://mobile.valor.com.br/brasil/5251749/lula-e-um-mediador-esta-longe-de-ser-um-radical-diz-belluzzo

https://economia.uol.com.br/noticias/bloomberg/2018/01/16/lula-trabalha-em-nova-carta-ao-povo-para-acalmar-mercado-gleisi.htm?cmpid=copiaecola&cmpid=copiaecola

 

CATIA SEABRA
DE SÃO PAULO
17/01/2018 02h00

Pedro Ladeira/Folhapress

Dirigentes petistas buscaram minimizar nesta terça (16) declaração da presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR). Ela disse que, para que o ex-presidente Lula seja preso, "vai ter que matar gente".

"Para prender o Lula, vai ter que prender muita gente, mas, mais do que isso, vai ter que matar gente. Aí, vai ter que matar", afirmou Gleisi, em entrevista ao site "Poder360", em alusão a eventual condenação de Lula pelo TRF4 (Tribunal Regional Federal da 4ª região), no próximo dia 24, em Porto Alegre.

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O presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, chamou a declaração de infeliz, afirmando que essa foi uma força de expressão.

Eduardo Knapp/Folhapress

Em julho de 2017, Lula foi condenado por Sergio Moro a nove anos e seis meses de prisão acusado de receber vantagens indevidas da OAS, como a reserva e reformas em um tríplex em Guarujá (SP). O caso está agora na segunda instância, e o petista recorre em liberdade


"Haverá uma comoção social. Vamos ficar chateados. Eu mesmo, se o Lula for preso, vou morrer do coração", reagiu Okamotto, que disse que não há orientação de endurecimento às vésperas do julgamento. "Não haverá uma revolução, infelizmente."

Ele acrescentou: "Vamos insistir na via institucional, o que não significa entrar com uma ação [na Justiça] e ir para casa de braços cruzados".

Para o líder do PT na Câmara, Paulo Pimenta (RS), a fala de Gleisi foi "força de expressão". "Não tem sentido literal. Não tem relevância."

O deputado Carlos Zarattini (PT-SP) opinou que Gleisi sofreu de "ansiedade cibernética", fruto de tentativa de se mostrar proativa na internet.

Após sua declaração causar polêmica, a senadora se justificou nas redes sociais: "Usei uma força de expressão para dizer o quanto Lula é amado pelo povo brasileiro. É o maior líder popular do país e está sendo vítima de injustiças e violência que atingem quem o admira. Como não se revoltar com uma condenação sem provas?".

Temerosos de acirramento de ânimos, petistas viram na declaração novo deslize de Gleisi. No sábado (13), ela divulgou que Lula havia sido homenageado pela torcida do clube alemão Bayern de Munique. Na faixa onde Gleisi leu "Forza Lula" estava, na verdade, "Forza Luca", em referência a um torcedor ferido.

A afirmação da senadora ocorre dias após o tesoureiro do PT, Emídio de Souza, reconhecer a militantes incertezas sobre o destino de Lula e estimular petistas a demonstrar força para constranger a Justiça. "Quanto mais força tiver o nosso movimento mais comedida a Justiça vai ser. Não sei se ela vai se amedrontar. Nós temos que demonstrar nossa força. Fazer nossa parte e depois a gente vê o que acontece."

O presidente do TRF4, Carlos Eduardo Thompson Flores, já manifestou preocupação com a segurança dos juízes da corte após ameaças.

Lula será julgado em segunda instância. Ele foi condenado a nove anos e seis meses de prisão pelo juiz Sergio Moro, acusado de corrupção e lavagem de dinheiro no caso do tríplex em Guarujá (SP).

LULA BARRADO

O juiz João Pedro Gebran Neto, do TRF4, negou nesta terça pedido da defesa de Lula para que ele fosse ouvido pela corte. Os advogados argumentam que garantias fundamentais foram violadas na primeira instância e que Lula tem o direito de ser ouvido por órgão imparcial e isento.

Para Gebran, a repetição do interrogatório exigiria reconhecimento de eventual nulidade do primeiro, tomado por Moro. O juiz do TRF4 disse que não poderia tomar a decisão sozinho, deixando a questão para a 8ª Turma da corte.

sábado, 30 de dezembro de 2017

A entrevista de Freixo

No dia 29 de dezembro de 2017, a Folha de S. Paulo publicou uma entrevista com o deputado estadual carioca Marcelo Freixo (PSOL).

A entrevista está disponível no seguinte endereço: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/12/1946626-nao-sei-se-e-o-momento-de-unificar-a-esquerda-nao-diz-marcelo-freixo.shtml

As declarações de Freixo geraram muita polêmica. Parte da repercussão pode ser lida nos endereços abaixo:

Frente às reações negativas, o deputado gravou um vídeo em que busca explicar o que disse.

O vídeo pode ser acessado no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=qW2XqFn2UnA&feature=youtu.be

No vídeo, Freixo lembra que não foi ele, mas a jornalista Anna Virginia Balloussier que escolheu o título dado à sua entrevista.

O título é: “Não sei se é o momento de unificar a esquerda, não”.

Situação semelhante com o título ocorreu em entrevista recente concedida por Boulos ao Valor.

Títulos fora, vamos ao conteúdo da entrevista, considerando que a edição das respostas não mereceu reparos da parte de Freixo.

*

Na primeira resposta, Freixo fala que “a esquerda até hoje não entendeu 2013”. Fala, também, que “a esquerda preferiu achar que aquilo ali era coisa da direita, o que não é verdade”.

É no mínimo estranho ver um historiador falar da “esquerda” como se fosse algo homogêneo. Afinal, existem várias esquerdas, que têm diferentes posições acerca de grande parte do que ocorreu na história mundial desde pelo menos 1848.

Dizer que “a esquerda” não entendeu o que teria acontecido em 2013, pressupõe que alguém – a começar por ele próprio, Freixo -- teria entendido. Como Freixo é uma pessoa de esquerda, pode parecer paradoxal esta sua forma de falar, exceto se entendermos que há um qualificativo oculto: “velha” esquerda e “nova” esquerda.

A “nova” esquerda, suponho, seria aquela que compreende e representa os movimentos que teriam irrompido em 2013. Que nesta narrativa ocupam lugar semelhante aos novos movimentos sociais que entraram em cena no final dos anos 1970, início dos anos 1980. Naquela época, contribuindo para o surgimento do PT. Hoje, segundo o que suponho ser decorrência da tal narrativa, criando espaço para que o PSOL ocupe seu espaço.

Da minha parte, penso que esta leitura sobre 2013 é tão falsa e parcial quanto a interpretação que resume o que ocorreu naquele ano a um movimento de direita. Mas o erro maior está em não perceber que -- mais que as mobilizações de rua de 2013 – muito mais decisiva foi a unificação do grande capital em torno da decisão de fazer o impeachment, criminalizar Lula e o PT.

Para perceber isto seria necessário colocar no centro da análise a luta de classes entre o grande capital e a classe trabalhadora. Colocando no seu devido lugar os setores médios: um setor em disputa.

*

Na segunda pergunta, Freixo atribui a ele e a sua companheira a ideia da candidatura Boulos. Como sabem os do ramo, memória e história oral constituem terreno pantanoso. É provável que outras pessoas tenham suas próprias histórias a respeito e todas considerem que sua iniciativa foi pioneira. Assim, salvo para quem estiver disposto a ironizar ou fazer análises psi, o que realmente interessa não é a paternidade, mas sim o papel atribuído à candidatura Boulos.

Freixo considera que a candidatura Boulos é portadora de várias qualidades. Na entrevista e no vídeo, fala-se de esquerda do século 21, antisistêmica, antirentista, expressão de novos movimentos etc. Freixo fala, também, de testes de aceitação feitos com integrantes de seu gabinete e também da participação de Boulos em uma reunião de intelectuais na casa de Paula Lavigne.

Tudo isto é muito interessante, mas muito mais importante é o que ele responde para uma pergunta simples feita pela jornalista da Folha: “é esperto pulverizar a esquerda em várias candidaturas?”

A versão compacta da resposta de Freixo é: “não sei”

Obviamente esta resposta foi alvo de todo tipo de crítica. 

Mas é preciso atentar para a resposta completa: “a gente vive um momento de reconstrução: qual esquerda a sociedade vai enxergar? Porque precisa enxergar o diferente. Não sei se é esse o momento de unificar todo mundo, não. Até porque a direita está muito fragmentada.”

Esta resposta é incrível, porque – Luke Skywalker que me perdoe— são muitas frases, mas nenhuma correta.

Começando pelo mais importante: é um equívoco achar que a direita está “fragmentada”. Existem várias pré-candidaturas de direita. Mas a coalizão golpista tem unidade estratégica; opera com vários cenários táticos, inclusive os que dispensam eleições; e tem meios para consolidar uma unidade eleitoral, como aliás fizeram em 1989.

Dizer que a direita está “fragmentada” é confundir 2018 com 2002, ocasião em que uma parcela importante do grande capital e de seus representantes políticos adotou uma posição de neutralidade e outra parte inclusive apoiou a candidatura Lula. Ou confundir com 1989, quando havia fragmentação eleitoral tanto da esquerda quanto da direita, mas ainda num contexto de crescimento da esquerda, situação diferente da atual.

Em segundo lugar: é falso dizer que vivemos um momento de “reconstrução”. Quem pensa assim acha que a batalha do presente ou já foi perdida, ou já foi ganha.  

Ao contrário do que diz Freixo, vivemos um momento de destruição de direitos, conquistas, liberdades democráticas e soberania. Um momento em que os golpistas (Temer inclusive) estão desgastados, com dificuldades, mas seguem atacando e causando danos profundos. Ao mesmo tempo, vivemos um momento em que ainda é possível deter, derrotar e reverter esta destruição. Possibilidade que depende de vencermos a eleição de 2018.  Pelo contrário, se perdermos 2018, podemos estar diante de um período mais prolongado de defensiva e derrotas.

Portanto, o que está em jogo não é qual esquerda a sociedade vai enxergar. O que está em jogo é unir a esquerda para derrotar a direita. Derrotar aqui e agora. Não depois.

Ao falar em “enxergar”, fica claro que Freixo pensa que 2018 é o momento em que se deve dar “visibilidade” para uma esquerda “diferente”. Diferente, como é óbvio, do PT e de Lula.

Por isso é que, para Freixo, a unidade da esquerda não é algo central. Pois unificar todo mundo só faz sentido se acharmos que há uma batalha decisiva, aqui e agora, que só será vencida se houver unidade. Mas se o pressuposto é que já está em curso um “processo de reconstrução”, então cabe usar as eleições de 2018, pelo menos o primeiro turno, para projetar a esquerda do século 21....

*

Freixo diz que não há a menor chance de unificar a esquerda em torno da candidatura Lula. E afirma: “se quisessem recompor a esquerda, não andariam de braços dados com Renan Calheiros em Alagoas”.

Sem dúvida, há setores da esquerda, espalhados em vários partidos, que são especialistas em fornecer pretextos para inviabilizar a unidade do campo democrático e popular.

Mas pretextos não são argumentos. Prova disso é que no vídeo citado, Freixo deixa claro que pode apoiar Lula no segundo turno de 2018, como apoiou Dilma em 2014. A questão central, portanto, não é Renan Calheiros.

O PSOL, assim como o PCdoB e Ciro Gomes, têm todo o direito de ter candidaturas presidenciais em 2018. Mas não vale usar o argumento (ver vídeo de Freixo) de que vivemos um cenário similar ao de 1989.

Se os golpistas levarem até o fim a interdição da candidatura Lula, e se o PT mantiver com firmeza a decisão de não ter plano B, a questão da unidade eleitoral da esquerda estará posta desde o primeiro bimestre de 2018; e vai se misturar com uma importante questão democrática, já que manter uma candidatura própria, neste contexto, pode servir aos que pretendem legitimar uma fraude.

*

É sobre isto que versam várias das seguintes respostas dadas à entrevista. Em resumo: num momento em que estamos chamados a derrotar o golpe, a construir o “pós-golpe”, Freixo se deixa arrastar para uma discussão sobre o pós-Lula!!!

Primeiro ele diz que o PT vai continuar um grande partido, mas é difícil imaginar “o que será dele na hora em que o guarda-chuva eleitoral do Lula fechar, e em algum momento ele vai. É aí que o pós-Lula vai se dar. Aliás, vai se dar mesmo se ele for eleito”.

Aí a jornalista pergunta: “como seria este pós-Lula com Lula presidente?”

E Freixo responde: “Se ele for impedido de concorrer, o pós-Lula vai ser posto. Se concorrer e perder... é o cenário ideal para a direita. O que também pode acontecer: Lula vencer e governar com alianças que sempre fez”.

Mesmo afirmando que Lula estaria sendo empurrado para uma postura de maior enfrentamento, Freixo diz que se pudesse Lula faria as alianças de sempre. E completa: “Nesse sentido o pós-Lula vai se dar também, para a esquerda. O PSOL precisa entender seu papel neste contexto. Não tem que ser anti-Lula, somando-se aos setores mais conservadores. Temos a chance de marcar diferença com o lulismo por meio de um programa.”

Novamente vamos de Skywalker: todas as frases do raciocínio acima estão erradas.

O maior erro é, como já dissemos antes, construir a tática em torno da disputa com o PT e com Lula, não em torno da disputa contra o golpismo e a direita. Se esta tática prevalecer, queira ou não, o PSOL se converterá em aliado objetivo dos setores conservadores, que também tem como centro de sua tática derrotar Lula e o PT.

O segundo erro é encarar 2018 da mesma forma como o PSOL encarou as eleições de 2006, 2010 e 2014. Ou seja: disputar no primeiro turno com candidatura e programa próprio, decidir no segundo turno o que fazer.

Especialmente se a direita prosseguir no processo de interdição da candidatura Lula, as eleições de 2018 precisam ser enfrentadas pela esquerda como algo totalmente diferente do normal.

Vale lembrar que no segundo turno das três eleições presidenciais que disputou até hoje, a posição oficial do PSOL não foi de apoiar a candidatura petista.

Agora, o que se espera de toda a esquerda é que considere unificar-se desde o início. Não apenas para ganhar a eleição, mas para impedir que o golpismo promova uma fraude que o legitime e consolide.

O terceiro erro, implícito nos anteriores, é a ausência de consideração aos cenários não eleitorais (golpe, parlamentarismo, adiamento das eleições etc.) e a crença – ausente no mais moderado dos petistas – de que Lula conseguirá disputar, vencer, tomar posse e governar como em 2002 e 2003...

Finalmente, há um quarto erro: acreditar na possibilidade de ultrapassar pela esquerda o PT, o petismo e o lulismo, através de uma demarcação programática e eleitoral.

Claro que o PT e Lula podem ser atropelados pela direita. Claro que algum setor da esquerda pode acreditar que seria beneficiado por este atropelamento. Ou pelos imperativos da biologia.

Mas o PT e Lula podem ser ultrapassados pela esquerda? Nesta conjuntura? E através da apresentação de uma candidatura presidencial e de um programa mais avançado? Que buscaria seu espaço sem tomar partido no fogo cruzado entre o golpismo e o PT? Acreditar em algo assim faz parte de uma das versões do cretinismo parlamentar de esquerda, que não consegue enxergar muito além das disputas eleitorais e legislativas.

*

Como disse antes, considero que Freixo é uma pessoa de esquerda. Mas algumas de suas posições – por exemplo no segundo turno das eleições municipais no Rio – revelam que ele vem fazendo crescentes concessões ao senso comum típico de certos “setores médios”. Exemplos disso, nesta entrevista à Folha, é o que ele diz acerca de Bolsonaro e da Operação Lava Jato. Mas sobre isso não vou falar, pois frente ao conjunto da obra, são erros menores.




segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Texto "antigo" sobre o programa

Texto sobre programa publicado no Le Monde Diplomatique Brasil

Sobre "O alfaiate de Ulm"

Esta história também nos diz respeito
(texto publicado na Revista Brasileira de História

O alfaiate de Ulm (Boitempo, 2014) é a última obra de Lúcio Magri (1932-2011), intelectual comunista italiano e um dos responsáveis pela criação de Il Manifesto, periódico lançado em 1969 e que segue sendo publicado (http://ilmanifesto.info/).

O alfaiate de Ulm pode ser lido em várias claves: relato autobiográfico e testamento político, panorama do século XX, ensaio sobre a história e as perspectivas do movimento comunista italiano (especialmente o apêndice, um documento de 1987 intitulado Uma nova identidade comunista).

O movimento comunista da Itália possui uma gênese histórica distinta, onde confluem as características próprias daquele país, o impacto da revolução russa de 1917, a luta contra o fascismo e as batalhas da Guerra Fria.

Neste contexto, o Partido Comunista não foi apenas uma organização política: foi também uma instituição cultural com imenso enraizamento na classe trabalhadora, na juventude e na intelectualidade, que teve na obra de Antonio Gramsci sua feição teórica mais conhecida e reconhecida.
Apesar disto tudo – ou por causa disto tudo, como fica claro da leitura de O alfaite de Ulm — o Partido Comunista Italiano cometeu suicídio em 1989.

Diferente das pequenas seitas militantes, que conseguem sobreviver em condições variadas e inóspitas, os partidos de massa parecem sobreviver apenas em determinadas condições. E como demonstra Lúcio Magri, várias das condições que tornaram possível a existência de um forte comunismo reformista italiano e europeu desapareceram junto com a União Soviética e com a reestruturação capitalista simultânea à ofensiva neoliberal.

Dito de outra forma, a força das duas grandes famílias da esquerda europeia (o reformismo social-democrata e o reformismo comunista), assim como o brilho dos grupos de ultra-esquerda que viviam à sombra daquele duplo reformismo, dependiam das condições “político-ecológicas” existentes na Europa enquanto durou a chamada bipolaridade entre União Soviética e Estados Unidos.

Quando este conflito cessou, com a vitória dos Estados Unidos, a socialdemocracia experimentou uma deriva neoliberal; e o reformismo comunista, uma deriva social-democratizante.

Claro que isto não foi um processo uniforme. Uma das qualidades de O alfaiate de Ulm é apresentar uma interpretação do que teria ocorrido no caso italiano. Vale destacar esta palavra: interpretação. Há muitas outras interpretações e sempre haverá o que estudar acerca das desventuras em série que atingiram o movimento comunista, o conjunto da esquerda e da classe trabalhadora, especialmente na Europa dos anos 1980 e 1990. A Itália constitui um caso destacado, em boa medida devido ao fato de lá estar baseado o tantas vezes denominado de maior partido comunista do Ocidente.

O alfaiate de Ulm pode ser lido com muito proveito por quem tem interesse em compreender os dilemas da classe trabalhadora, da esquerda brasileira e especialmente do Partido dos Trabalhadores.

Época e circunstâncias muito diferentes, obviamente. A começar pelo fato de que as variáveis internacionais que fortaleciam o reformismo socialdemocrata e comunista na Europa, produziam efeitos muito distintos na América Latina e Caribe, Brasil inclusive.

Isto ajuda a entender porque, na mesma época em que o PCI cometia suicídio, abandonando suas tradições e inclusive seu nome, o Partido dos Trabalhadores estava convertendo-se em força hegemônica na esquerda brasileira.

Guardadas estas diferenças, é impossível não enxergar certas semelhanças entre os dilemas vividos pelo Partido Comunista Italiano nos anos 1970 e 1980 e os impasses vividos mais de vinte anos depois pelo Partido dos Trabalhadores brasileiro.

Os dilemas do PCI são descritos detalhadamente em O alfaiate de Ulm. Segundo Lúcio Magri, a peculiaridade do PCI (...) era a de ser um “partido de massas” que “fazia política” e agia no país, mas também se instalava nas instituições e as usava para conseguir resultados e construir alianças (p.333).

Magri demonstra que a atuação na institucionalidade não foi apenas uma estratégia. Mais do que isto, converteu o PCI em parte estrutural do Estado italiano, naquilo que Magri chama de um elemento constitutivo de uma via democrática. Uma medalha que, no entanto, tinha um reverso (p333).

Este “reverso”, que soa tão familiar ao que acompanham as vicissitudes atuais da esquerda brasileira, é assim apresentado por Lúcio Magri: Não me refiro apenas ou sobretudo às tentações do parlamentarismo, à obsessão de chegar a todo custo ao governo, mas a um processo mais lento. No decorrer das décadas, e em particular em uma fase de grande transformação social e cultural, um partido de massas é mais do que necessário, assim como sua capacidade de se colocar problemas de governo. Mas, por essa mesma transformação, ele é molecularmente modificado em sua própria composição material (p.333).
Talvez esteja nisto a maior contribuição de O alfaiate de Ulm: esta abordagem profundamente histórica da vida de um partido político, ou seja, a compreensão de que a história de um Partido só pode ser adequadamente compreendida como parte da história de uma sociedade, enquanto processo integrado entre as opções estritamente políticas, as tradições culturais e as relações sociais mais profundas, num ambiente nacional e internacional determinado.

A descrição que Lúcio Magri faz do processo de seleção e promoção dos dirigentes partidários fala por si: a formação de novas gerações, mesmo entre as classes subalternas, ocorria sobretudo na escola de massas e mais ainda por intermédio da indústria cultural; os estilos de vida e os consumos envolviam toda a sociedade, inclusive os que não tinham acesso a eles, mas alimentam a esperança de tê-lo; as “casamatas” do poder político cresciam em importância, mas descentralizavam-se e favoreciam aqueles que ocupavam as sedes; a classe política, mesmo quando permanecia na oposição e incorrupta, à medida que a histeria anticomunista diminuía, criava relações cotidianas de amizade, amálgama, hábitos e linguagem com a classe dirigente (p333).

Esta “mescla de costumes” da “classe política” com a “classe dirigente”, como sabemos, não é uma peculiaridade italiana. Tampouco seus efeitos organizativos, assim descritos por Magri: as seções não estavam mais acostumadas a funcionar como sede de trabalho das massas, de formação cotidiana de quadros; eram extraordinariamente ativas apenas na organização das festas do Unitá, e mais ainda nos períodos de eleição nacional e local; as células nos locais de trabalho eram poucas e delegavam quase tudo ao sindicato. Nos grupos dirigentes, a distribuição dos papeis havia mudado muito: o maior peso e a seleção dos melhores haviam se transferido das funções políticas para as funções administrativas (municípios, regiões e organizações paralelas, como as cooperativas). Portanto, mais competência e menos paixão política, mais pragmatismo e horizonte político mais limitado. Os intelectuais sentiam-se estimulados para o debate, mas sua participação na organização política havia declinado e o próprio debate entre eles era frequentemente eclético. A exceção era o setor feminino, em que um vínculo direto entre cúpula e base criava uma agitação fecunda (p.334).

Noutras palavras, Lúcio Magri descreve como as transformações “moleculares” causaram uma metamorfose no Partido Comunista: pouco a pouco foi deixando de ser um fator de subversão, transformando-se em peça importante na engrenagem do Estado e da política italiana. Uma peça diferente das outras, como demonstraria a Operação Mãos Limpas, que confirmaria que o PCI soubera resistir à corrupção sistêmica. Mas uma peça da engrenagem, como demonstra o fato do PCI não ter sobrevivido ao colapso da estrutura política italiana.
Neste sentido, a interpretação feita por Lúcio Magri parece demonstrar que o Partido Comunista Italiano não foi vítima do fracasso, mas sim uma vítima do sucesso da “estratégia” que alguns denominaram, na Itália e aqui no Brasil, de “melhorista”.

Esta estratégia não apenas melhorou a vida da classe trabalhadora italiana, como converteu o comunismo numa força influente e vista como ameaçadora pela classe dominante e pelos Estados Unidos, que atuaram tanto aberta quanto secretamente para evitar o êxito da aliança entre o PCI e a Democracia Cristã. Lúcio Magri trata destas operações, especialmente visíveis no caso Aldo Moro.

Bloqueado pela direita, o PCI tentou – sob a direção de Berlinguer – uma saída pela esquerda. Os capítulos que tratam desta fase são talvez os mais interessantes de O alfaiate de Ulm, em parte por discutirem se a história poderia ter seguido um caminho diferente.

Como sabemos, entretanto, não foi isto o que ocorreu. Ao longo dos anos 1970 e 1980, alteraram-se profundamente os parâmetros dentro dos quais se movera a política no pós-Segunda Guerra, tanto na Itália quanto no mundo. O PCI não conseguiria chegar ao poder nos marcos daqueles parâmetros em vias de desaparecimento. Não conseguiria tampouco defendê-los frente à ofensiva neoliberal e à crise do socialismo. Nem conseguiria sobreviver para atuar nas novas condições.
Lúcio Magri descreve, num tom profundamente autocrítico e em certo momento impiedoso consigo mesmo, as opções feitas pela maioria dirigente do PCI, que levaram à mudança do nome e das tradições políticas e culturais do Partido. Mostra como havia energias vivas na base militante do comunismo italiano, energias que não foram suficientes para dar vida ao projeto da Refundação Comunista.

Enfim, pelo que descreve, pelas conclusões a que chega e pelas perguntas que deixa, O alfaiate de Ulm de Lucio Magri é leitura mais do que relevante para os que têm interesse em compreender os dilemas atuais do Partido dos Trabalhadores, do conjunto da esquerda e os rumos da política brasileira neste terceiro milênio.


O alfaiate de Ulm
Uma possível história do Partido Comunista Italiano
Lucio Magri
Título original
Il Sarto di Ulm: Una Possibile Storia del PCI
415 páginas
Boitempo: São Paulo, 2014
isbn
978-857-559-356-1

Republicando texto velho

Balance de una derrota
Acerca de los epitafios

Otra Mirada


Sólo algo es más aburrido que una derrota: los epitafios escritos por los enemigos, y los falsos amigos. Frente a ellos, sólo hay un antídoto: el examen de la realidad, la búsqueda de las causas, retomar energías y volver a caminar.
Para empezar: la izquierda ha sufrido, sufre y sufrirá aún peores derrotas que las del pasado 2 de octubre del 2016. Hoy hemos sufrido una derrota electoral y un golpe de estado mediático-judicial-parlamentario. En el pasado no muy lejano, nos enfrentamos a los homicidios, desapariciones, torturas y golpes militares.
En la actualidad, el mismo día 2 de octubre se realizó la consulta en Colombia que dijo NO al acuerdo de paz entre las FARC y el Gobierno. Detalles: allí, como tan a menudo aquí, la abstención fue decisiva para el resultado.
En un futuro próximo, más malas noticias pueden venir, la derecha en Brasil va a redoblar su ofensiva contra nuestro partido, nuestros líderes y en contra de los movimientos y los derechos sociales. Cómo dice el refrán, “nada es tan malo que no pueda empeorar”. Así que vamos a preparar los espíritus.
La derrota electoral del 2 de octubre el año 2016 fue una catástrofe anunciada por: a) Los resultados del 2014. b) La política económica adoptada al comienzo del segundo mandato de Dilma. c) La Operación Lava Jato. d) La  feroz campaña anti PT del oligopolio mediático. e) Las manifestaciones de masas de la derecha. f) El juicio político a la presidenta Dilma. g) Las campañas electorales, incluyendo la línea de campaña del partido: alianzas indebidas, esconder la estrella símbolo del PT. Incluso antes de la campaña, la reducción del número de ciudades en donde el PT lanzó candidaturas.
El 2012 presentamos 1.829 candidatos como Alcaldes, en 2016 presentamos 995. En 2012 presentamos 40.000 candidatos a Regidores, en 2016 presentamos 22.000. Las cifras ya indicaban lo que estaba por venir.
La derrota electoral fue del Partido de los Trabajadores (PT)
A nivel nacional, los candidatos mayoritarios del PT recibieron alrededor de 6,8 millones de votos. En 2012, recibimos 17.2 millones de votos. 
A nivel nacional, el PT ha pasado de gobernar  630 municipios a 231 ahora. En Sao Paulo caímos de 70 municipios ganados el 2012, a 8 ahora. La derrota también nos golpeó en estados gobernados por el PT. Este es el caso de Ceará, Minas Gerais y Bahía. Si tomamos en cuenta el número de personas que viven en ciudades gobernadas por alcaldes del PT, la derrota se vuelve desastrosa. En 2016 gobernábamos ciudades donde vivían 37,9 millones de personas. A partir del 1 de enero vamos a gobernar ciudades donde viven apenas 6,1 millones de personas.
Todo esto significa grandes dificultades para imponernos en las ciudades en donde habrá una segunda vuelta. Obviamente la derecha hará lo posible para infligirnos más derrotas, como por ejemplo, en Recife y Santa María. Lo que quiere decir, también, que los pocos mandatos a Alcaldes y Regidores que hemos logrado tendrán tiempos extremadamente difíciles en el futuro.
Pero la derrota no fue sólo del PT. El número de electores que votan a la izquierda, en sus diversas expresiones, es mucho menor hoy que en las elecciones anteriores. Lo que significa que los partidos de izquierda que sueñan con superar al PT a través de elecciones, también verán tiempos difíciles hacia adelante. El PSOL, por ejemplo, se presentó en un pequeño número de alcaldías en todo el país. Si gana en la segunda vuelta, conseguirá dirigir cinco municipios. Su votación cayó, de las elecciones en la primera vuelta del 2012 a las de la primera vuelta del 2016, de 2,38 millones a 2,09 millones de votos. Disputarán la segunda vuelta en las ciudades de Belén y Río de Janeiro, donde tendrán que enfrentar las maniobras de "domesticación" impulsadas por el grupo mediático O Globo. 
¿Quién creció con la derrota del PT? Sobre todo el PSDB. En otras palabras, los hechos no han confirmado el discurso según el cual la derrota del PT estaría acompañado por el final de la polarización entre el PT y el PSDB.
Y dentro del PSDB, el gran triunfo es del sector del Opus Dei. Son “tucanos” (miembros del PSDB) ,10 de los 23 millonarios que han sido elegidos para gobernar municipios en todo el país. Esto está acompañado por el crecimiento de diversas agrupaciones de derecha. Enfrentar esta nueva correlación será más difícil en la medida exacta en que enemigo común de todas ellas, el PT, ha salido debilitado. 
A continuación podemos observar la variación de las victorias de los partidos principales, el primer número se refiere a 2016 y la segunda se refiere a 2012. Incluso sin tener en cuenta el número de habitantes por la ciudad, es evidente una proyección “tucana” (PSDB): 

Entre las diversas causas de la derrota del PT, la principal es la misma que hizo posible el juicio político en contra de Dilma: la pérdida de apoyo en la clase trabajadora. Una parte más pequeña de la que nos apoyaba antes sigue detrás de nosotros. Otra parte menor votó por candidatos de izquierda, no pertenecientes al PT. La mayoría fue a votar por candidaturas de centro o de derecha. Y una buena parte también ha reforzado las filas del voto en blanco, nulo y la abstención.
Los números en la ciudad de Sao Paulo son chocantes: Dória (el alcalde elegido del PSDB) ha obtenido 3’085,187 votos. La suma de los votos blancos, nulos y abstenciones alcanzó  3’096,304 votos. Los números en Belo Horizonte también son alarmantes: el 38% del electorado de Belo Horizonte no votó por ninguno de los candidatos a la alcaldía. 
Esto es quizás lo más exitosa de la campaña de la derecha: La reducción de los votos válidos a través de la criminalización de la política y de los políticos.
Aquí y allá, hay quienes se quejan del voto popular. No hay duda de que una parte de la población votó en contra de sus intereses. No hay duda, tampoco, que una parte de la gente dejo de votar y, por lo tanto, también ayudó a socavar sus intereses. ¿Pero por qué razones esto ocurrió? ¿Qué ha cambiado entre 2012 y 2016, qué provocó estos cambios en el comportamiento del voto popular?
La respuesta es, que en ese intervalo, la izquierda brasileña, en particular el PT, cometió errores que alienaron porciones importantes del pueblo y que facilitaron los ataques de la derecha.
Por lo tanto, los argumentos tales como "pueblo ingrato" sólo sirven para enmascarar las responsabilidades de la izquierda, especialmente las del PT.
Y hablando de responsabilidades: el resultado electoral muestra una vez más que la posible adopción del voto voluntario no favorece a la izquierda. También muestra que el financiamiento de las empresas privadas continúa presente en las disputas electorales. Lo que, asociado con el oligopolio de los medios, perjudica enormemente las candidaturas populares.
Dicho esto, ¿cómo evaluar las palabras de un experto en ciencias políticas, publicado hace unos días en la edición de un periódico de Sao Paulo, según la cual el PT " enfrenta la dificilísima tarea de recuperar la posición de liderazgo del campo de la centro-izquierda”?
La respuesta es: ¡quieren que reincidamos en el error¡
Debido a que fue la búsqueda de ser líderes del “campo de la centro-izquierda" lo que nos llevó a sucesivas rondas de moderación programática y a compromisos sucesivos en la manera tradicional de hacer política, que a su vez nos condujeron  a las derrotas electorales de los últimos días, semanas y meses.
Si el PT quiere "recuperar" algo, tiene que ser la posición de líder en el campo de la “izquierda”, para lo cual necesita recuperar la influencia perdida en los sectores obreros y populares. 
El ejecutivo y el directorio nacional del PT tienen que reconocer el tamaño de la derrota, convocar inmediatamente a un congreso plenipotenciario, para cambiar la línea del partido y elegir una nueva dirección. 
Es esto, o soportar los epitafios.
Valter Pomar fue Secretario de Relaciones Internacionales del PT entre el 2005-2009. Como tal ocupó la Secretaría General del Foro de Sao Paulo en aquellos años. Actualmente es profesor universitario y militante del PT.
 

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Comentários sobre a entrevista de Boulos

Guilherme Boulos, do MTST, concedeu uma entrevista ao jornal Valor.

Reproduzo abaixo a íntegra da entrevista, ou melhor, tal como ela foi editada e publicada pelo Valor.

A manchete do jornal é: "Ciclo do PT se encerrou, diz Boulos".

Boulos nega ter dito esta frase.

De fato, teria sido uma tolice dizer isto.

Primeiro, porque desde 2005 o PT já recebeu a extrema-unção diversas vezes, mas até agora resiste.

Segundo, porque de pré-candidato que briga com potenciais eleitores, nos basta Ciro Gomes.

Terceiro, porque apesar das críticas, grande parte da esquerda não faz mais do que reproduzir a estratégia seguida anteriormente pelo PT.

Um bom exemplo disto está na citada entrevista de Boulos.

Ele afirma que 2018 não é 2002. É verdade. Mas tampouco é 1989.

O que ocorreu com o PT e Lula em 1989, não ocorrerá em 2018 com o PSOL e Boulos.

O PT pode ser atropelado pela direita. Mas não será ultrapassado pela esquerda.

Claro que há quem pense que um eventual impedimento de Lula poderia criar as condições para esta ultrapassagem pela esquerda.

Imaginam que, sem Lula, o PT poderia vir a apoiar uma candidatura de outro partido; ou vir a lançar um nome petista com menor densidade eleitoral.

Situações que, ao menos em tese, poderiam beneficiar uma candidatura proveniente da esquerda crítica ao PT.

Ocorre que não foi isto o que o PT decidiu, na sua reunião de 15 e 16 de dezembro de 2017. Segundo a direção do PT, não há nem haverá plano B. O candidato será Lula, aconteça o que acontecer dia 24 de janeiro e posteriormente.

Claro, também, que esta acima descrita é a posição do PT. Tanto o PCdoB quanto o PSOL tem todo o direito de lançar e de manter até o final suas respectivas candidaturas presidenciais.

Mas caberia perguntar que papel estas candidaturas jogariam, num cenário fraudado pelo eventual impedimento de Lula concorrer.

Dito de outro jeito: as demais candidaturas de esquerda não correriam o risco de serem utilizadas para legitimar uma fraude, participando de um processo viciado na origem?

Não seria melhor formar, desde já, uma aliança com o PT e com Lula, em torno de um programa de revogação das medidas golpistas e de reformas estruturais? E enfrentarmos juntos -- com uma aliança de esquerda e sem golpistas -- o que vier pela frente?

Parte da esquerda não petista já decidiu que é melhor fazer isto.

Boulos parece, digamos, ter cada vez mais dúvidas a respeito.

Por um lado, afirma que “Lula é a maior liderança social e política do país, fez o governo mais popular da história da nova República e teve acertos e erros”.  
Apesar disso, considera a hipótese de ser candidato à presidência da República pelo PSOL.

Acontece que, caso Lula seja candidato, é pouco provável que haja espaço de massa para outra candidatura de esquerda. Salvo, é claro, que esta eventual candidatura tente crescer batendo no PT e em Lula, hipótese em que receberá generoso espaço da mídia golpista.

E, caso Lula não seja candidato, caberá responder o que foi comentando acima: se cabe a uma candidatura de esquerda agir de forma que pode ser manipulada para legitimar uma fraude.

O que dissemos até agora envolve algumas variáveis em aberto.

Seja como for, é muito curioso ver este tipo de dúvida e tentação eleitoral afetando alguém que critica a esquerda por ter deixado “de fazer o trabalho de base, de estar nas periferias”, de ter reduzido “sua atuação política à disputa do aparelho do Estado”.

Se é assim; e se é verdade que a crescente insatisfação popular abre espaço para saídas mais radicais, por qual motivo conceder centralidade para uma candidatura presidencial própria?

Isto faria e faz sentido, óbvio, para quem no fundo, no fundo, acha possível repetir a experiência dos governos do PT, sem cometer os erros do PT.

Objetivo que supõe fazer uma acumulação eleitoral de forças. Ao estilo do PT. 

O que gera uma contradição entre a prática e a teoria segundo a qual a “esquerda não pode ficar restrita a um projeto eleitoral”.

Deste ponto de vista, o trecho que considero mais interessante na entrevista de Boulos é o seguinte: 

Temos um ciclo se encerrando, o ciclo de um estratégia que foi capitaneada hegemonicamente pelo PT, inclusive nos seus governos, de que era possível ter avanços sem enfrentar a estrutura arcaica de privilégios. Nos governos Lula se teve avanço porque havia um crescimento médio de 4%. Com manejo orçamentário se fazia política social sem tirar nada do andar de cima. Quando a crise vem, isso não é mais possível. A esquerda tem de pensar rumos, um novo projeto, nova perspectiva. Essa perspectiva não tem que ser pensada para a próxima eleição apenas, mas para os próximos 10, 20, 30 anos”.

Aqui fica claro o problema do título dado pelo jornal para a entrevista: o Valor não atentou para a sutileza do argumento.

Afinal, o encerramento do ciclo de uma estratégia não necessariamente é o encerramento do ciclo do Partido que defendeu aquela estratégia.

Sutilezas a parte, há duas lacunas na resposta de Boulos, pelo menos na versão publicada pelo Valor.

A primeira lacuna é: a estratégia pode ter sido superada, mas Lula e o PT estão sendo ameaçados pela direita, não pela esquerda.

A segunda lacuna é: a estratégia supostamente superada não se limitou à conciliação; incluiu também o destaque dado às disputas eleitorais e aos governos.

Portanto, para os críticos desta estratégia, não basta dizer que uma nova perspectiva ”não tem que ser pensada para a próxima eleição apenas, mas para os próximos 10, 20, 30 anos”.

É preciso, também, destacar que uma nova perspectiva deve considerar a hipótese cada vez mais forte, da direita bloquear o caminho eleitoral pelos próximos 10, 20, 30 anos.

Um motivo a mais para não tentar repetir, em 2018, o que o PT tentou fazer em 1989.

Por tudo isto e por outros motivos, o melhor caminho é o da unidade, não apenas em torno do direito de Lula ser candidato, mas também em torno da candidatura Lula.


SEGUE A ENTREVISTA

"Ciclo do PT se encerrou, diz Boulos"
O ciclo do PT no poder se encerrou e a esquerda precisa tirar o foco da eleição de 2018 e reconstruir-se. A análise é do líder nacional do MTST, Guilherme Boulos, cotado para disputar a Presidência pelo Psol, em um eventual cenário eleitoral sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Valor: Como será a esquerda pós-Lula?
Guilherme Boulos: Lula é a maior liderança social e política do país, fez o governo mais popular da história da nova República e teve acertos e erros. Mas não é possível achar que 2018 é 2002. O país está afundado em uma recessão enorme, está polarizado, a economia encolheu e a margem de manobra para uma composição social se reduziu muito. O desafio é pensar um programa que não seja o de conciliação, mas de enfrentamento e que bote o dedo na ferida de problemas estruturais.
Valor: Uma disputa eleitoral sem Lula une a esquerda ou a fragmenta ainda mais?
Existe a compreensão do direito do Lula de ser candidato como uma questão democrática. Não é de convergência programática, mas de não deixar que o Judiciário defina o processo eleitoral no tapetão. A esquerda tem diversidade. A intolerância e a unidade artificial nós deixamos para a direita. Eles são bons nisso. Defendo que a esquerda se apresente em 2018 com projeto de enfrentamento, sem alianças com golpistas. No primeiro turno é muito improvável ter candidatura única. Já se lançaram pré-candidaturas.
Valor: Quem são os candidatos que o senhor considera nesse campo? A Marina é de esquerda?
Não. Ela atravessou o rubicão quando apoiou Aécio Neves no segundo turno em 2014 e, em especial, quando apoiou o golpe [impeachment] em 2016. Marina foi para um caminho sem volta. Mas o cenário ainda está indefinido. O TRF-4 antecipou o julgamento para janeiro, o que é um escândalo, passou por cima de todos os ritos processuais e politizou.
Valor: Setores da esquerda apostam que a exclusão de Lula vai mobilizar as ruas contra o impedimento. O senhor vê essa disposição?
Boulos: Poucos foram às ruas para barrar uma reforma trabalhista que faz o país andar 80 anos para trás. Poucos foram às ruas para barrar uma emenda constitucional que congela investimentos públicos pelos próximos 20 anos. É um momento de perplexidade, de dificuldade. Por mais que haja uma grande insatisfação com o status quo, que se expressa na ampla rejeição do governo Temer e do Congresso, isso ainda não se traduziu em mobilização popular.
Valor: A que atribuiu isso?
Boulos: Parte da esquerda deixou de fazer o trabalho de base, de estar nas periferias e reduziu sua atuação política à disputa do aparelho do Estado. A esquerda paga por ter-se desvinculado dos setores sociais que dão sustentação a projetos de transformação política. Quem tem ocupado esse vácuo nas periferias urbanas são  as igrejas pentecostais. O abismo entre o que as pessoas querem e as decisões do governo e do Congresso é tão grande que mesmo com mobilizações e rejeição ampla de Temer elas pisam no freio. As pessoas pensam: 'vou para a rua e não está resolvendo'. Isso gera apatia, perplexidade. A longo prazo, cria uma fissura profunda entre Brasília e o Brasil, que se traduz no sentimento de insatisfação com a política e que pode se expressar em algum momento com explosões sociais.
Valor: Mas não há sinais disso...
Boulos: Ainda predomina a apatia, mas há sinais. Um exemplo é ocupação Povo Sem Medo, do MTST, em São Bernardo do Campo. Entramos no terreno com 500 pessoas e em uma semana tinhamos 5 mil. Hoje tem 8 mil famílias. São pessoas que foram por falta de alternativa e que estão se dispondo a lutar. Não é caso isolado, acontece em várias partes do país. O crescimento das ocupações é expressão do agravamento da crise social e da falta de resposta política. Ainda não tem potência para alterar a relação de forças sociais, mas anuncia a insatisfação popular.
Valor: O pós-Lula não tornará inadiável à esquerda enfrentar o tema do financiamento do Estado e da desigualdade no mundo do trabalho entre setores  do funcionalismo público e trabalhadores da iniciativa privada?
Boulos: Temos que nos defrontar com os privilégios, inclusive na Previdência, mas o debate está mal colocado. O foco deve estar nos militares, na cúpula do Judiciário, nos parlamentares. A Previdência deles é muito onerosa. O discurso de que a reforma é para combater privilégios é mentira.
Valor: É justo que um professor tenha regime de aposentadoria mais benéfico do que o gari que trabalha na limpeza pública?
A Previdência deve assegurar condições dignas a todos. O debate está mal colocado quando se parte da discussão de que há um grande déficit, que tem que cortar senão não se sustenta no longo prazo. A Constituição prevê receitas para a seguridade social que não são aplicadas na Previdência. O déficit também é resultado de manobra fiscal. A Previdência  é parte da sustentação social e econômica do país e move a receita de muitos municípios. Colocar a Previdência como vilã só interessa aos bancos que querem ampliar os fundos de previdência privada.
Valor: A situação fiscal de 2019 não vai obrigar a esquerda a ser mais realista?
A discussão para resolver o problema fiscal é uma reforma tributária progressiva, em que o andar de cima pague imposto. O financiamento do Estado tem que passar pelo imposto sobre grandes fortunas, maior progressividade no Imposto de Renda, com criação de novas faixas e isenção de faixas menores. Reforma tributária não é bolivariana, nem comunista. Foi feita na maior parte dos países capitalistas.
Valor: O sistema tributário é fruto de um consenso das forças políticas que aí estão. Como se muda isso sem alianças no Congresso?
Boulos: É preciso um plano de investimento emergencial que retome a economia no país, o emprego e a renda com o uso das reservas internacionais. Existe possibilidade para se fazer investimento público a partir daí e não depende do Legislativo. Existem duas formas de governabilidade. Uma é estritamente parlamentar e foi um dos erros que o PT cometeu: acreditar que a única forma de governar era em aliança com o PMDB. Outra possibilidade é construir governabilidade com respaldo popular.
Valor: Mas o tempo da mobilização da sociedade é mais longo que o da política...
Boulos: Mais ou menos. Veja o que aconteceu em países vizinhos, como no Equador, Bolívia, que chamaram Assembleias Constituintes e colocaram o povo no jogo. Sem isso, a esquerda nunca vai conseguir fazer um programa de esquerda e vai sempre ficar refém do PMDB. O PMDB nunca ganhou eleição presidencial e sempre esteve por trás de todos os governos. A única forma de se livrar disso é colocando o povo no tabuleiro.
Valor: No meio dessa apatia a que assistimos?
Boulos : A esquerda não pode ficar restrita a um projeto eleitoral. Temos um ciclo se encerrando, o ciclo de um estratégia que foi capitaneada hegemonicamente pelo PT, inclusive nos seus governos, de que era possível ter avanços sem enfrentar a estrutura arcaica de privilégios. Nos governos Lula se teve avanço porque havia um crescimento médio de 4%. Com manejo orçamentário se fazia política social sem tirar nada do andar de cima. Quando a crise vem, isso não é mais possível. A esquerda tem de pensar rumos, um novo projeto, nova perspectiva. Essa perspectiva não tem que ser pensada para a próxima eleição apenas, mas para os próximos 10, 20, 30 anos.